Chegamos ao limiar, há muito anunciado, em que os recursos financeiros já não bastam para manter vivo e atuante um sistema de assistência à saúde criado para fornecer acesso universal com qualidade e equidade a toda a população. As inovações surgidas nos últimos anos e incluídas às rotinas de diagnósticos e terapias   acarretaram elevações extraordinárias ao custeio dessas ações.

A quantidade de famílias obrigadas a abandonar seus planos de saúde privados, por falta de meios financeiros para honrar os pagamentos, por perda de trabalho, ou por não poder acompanhar os índices de reajustes do setor, sempre acima dos oficiais, está inflando de forma expressiva o Sistema Único de Saúde, dependente de dotações orçamentárias muito acima da realidade atual.

A situação econômica do setor não mais permite que, em cidades de 50.000 habitantes, existam perto de uma dezena de equipamentos automatizados em hematologia, bioquímica ou hormônios. Muito se comenta o número excessivo de tomógrafos e ressonâncias. Citações relacionadas à utilização exacerbada desses equipamentos são frequentes.

Há que se procurar soluções eficientes e econômicas, que possam ter a abrangência possível no território nacional, onde duplicidades em formas de atendimento sejam dispensáveis. Fundamental a implantação de protocolos únicos, adaptáveis às diversidades, adversidades, e ao tamanho do país.

Existe obrigação em manter permanente atenção a tudo que nos cerca, com atenção focada ao exemplo que vem de nações muito mais ricas e poderosas, que também tem procurado saídas eficientes e mais econômicas.

Os EUA, apesar de sua capacidade financeira e a diversidade dos   recursos técnicos disponíveis, enfrentam grandiosos desafios para manter sistemas de saúde que satisfaçam às sempre presentes exigências   de resolutividade e qualidade. Os custos, sempre crescentes, exigem transformações radicais. Os gastos em assistência à saúde para este ano poderão chegar a quase 19% do PIB. Níveis nunca antes imaginados.

Algo em torno de 70 bilhões de dólares.

Este é o valor divulgado da transação comercial que envolveu a venda da AETNA, uma das grandes operadoras americanas de planos de saúde, que administra um “fichário” de 44 milhões de vidas, para a rede CVS, a maior do país.

Serão cerca de 10.000 estabelecimentos farmacêuticos a racionalizar o atendimento e minimizar os custos da assistência à saúde. O planejamento abrange o aproveitamento desse quase incrível número de farmácias   e nelas implantar a principal porta de entrada dos usuários.

Retorno à antiga Pharmacia do século passado, que não sobreviveria sem a presença de um consultório médico no seu interior?

No primeiro atendimento os clientes passariam por um processo de triagem, diagnóstico e tratamento de enfermidades corriqueiras, e o acompanhamento terapêutico de doenças crônicas. Haveriam sempre presentes equipes de saúde com total habilitação para esse tipo de trabalho. Essas ações permitiriam resolver de forma rápida, eficiente e econômica cerca de 60% dos atendimentos, bem como vincular o cliente àquele local.

Quando sinalizada uma situação mais complexa, imediato encaminhamento às instâncias mais resolutivas.

São soluções simples e adaptáveis a qualquer país que disponha de legislação sanitária e normas vigentes apropriadas a esse tipo de atendimento, e que poderiam resolver de forma eficiente e muito mais econômica o acesso à atenção primária.

Muitos dos sistemas de atenção em saúde , aplicados em todo o mundo estão em análise permanente. Não existem mais recursos financeiros que possam suportar os modelos atualmente utilizados.

No momento em que as corporações americanas Amazon, WBuffet e JPMorgan unem seus esforços para construir uma entidade sem finalidades lucrativas para administrar a gestão em saúde dos seus um milhão de colaboradores, quando a General Motors procura o Henry Ford Health Service para atendimento direto a seus 24 mil funcionários nos EUA (180 mil em todo mundo), pensamentos fervem a alguns neurônios entram em estado de fusão, em ansiosas indagações sobre o futuro.

São apenas alguns de muitos exemplos a serem testados.

O certo é que o setor saúde terá que se afastar dos tradicionais modelos que contemplam o pagamento pelo volume de serviços prestados. E focar menos nos procedimentos que geram mais receitas.

No Brasil, onde existe muito a ser feito, o mais oportuno seria manter todas as lentes muito bem limpas, calibradas e apontadas ao que de melhor está sendo realizado e, sem medo de ser feliz, implementar os modelos inovadores testados e aprovados. Com as adaptações necessárias às nossas particularidades.

Duas décadas foram perdidas na implantação de um SUS irreal, ineficiente e aparelhado. Nesse momento em que tantas mudanças estão previstas, as expectativas são crescentes.

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Irineu Grinberg
Publicado por Irineu Grinberg

Irineu Grinberg é ex-presidente da Sociedade Brasileira de Análises Clínicas (SBAC). Email: [email protected]

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