A redução de 42% na realização de biópsias de pele em 2020, comparado ao ano anterior, evidencia que as pessoas estão negligenciando a ida ao médico diante de lesões na pele por temerem a infecção pela Covid-19. O tema será um dos debatidos pelos especialistas, em 23 e 24 de abril, no Congresso Brasileiro de Câncer de Pele 

Um dos avanços importantes nessa área é o estudo genético da biópsia no laudo patológico

A pandemia da Covid-19 teve impacto sobre as doenças oncológicas e o câncer de pele, o mais comum no Brasil, com 183.390 casos previstos para este ano, não é exceção.  No país, em 2019, foram realizadas 271.818 biópsias de câncer de pele. Em 2020, ano marcado pela pandemia, foram 157.968 biópsias, uma queda de 42% na realização desse exame essencial para confirmar se uma lesão na pele é câncer ou não. Os dados são do DATASUS, do Ministério da Saúde.

O tema “A Pandemia da Covid-19 e o câncer de pele” será um dos debatidos no Congresso Brasileiro de Câncer de Pele, evento 100% virtual, que acontecerá em 23 e 24 de abril. A situação apontada pelos números do DATASUS é preocupante, avalia o cirurgião oncológico e presidente da SBCO, Alexandre Ferreira Oliveira. “Os dados refletem o comportamento das pessoas na pandemia. Por medo do contágio da Covid-19, muitos deixam para depois a ida ao médico para avaliar lesões na pele”, diz.

Trata-se de um comportamento de risco, uma vez que o melanoma, o tipo mais grave de câncer de pele, por exemplo, quando descoberto e tratado no início apresenta taxas de cura de mais de 90%. Já se a doença avançar, atingindo uma espessura superior a 4 milímetros na pele, as chances de sobrevida em cinco anos caem para 40%. Além da espessura da lesão, outros aspectos considerados no diagnóstico são a presença de úlceras (feridas na pele), comprometimento dos linfonodos e se a doença disseminou para outras partes do corpo (metástase). Por essa razão, é que a orientação das Sociedades é que pacientes já diagnosticados mantenham o tratamento e aqueles com lesões de pele procurem o médico para descartar ou confirmar a possibilidade de câncer. Casos confirmados, principalmente de melanoma, devem iniciar o tratamento imediatamente.

Para ter ideia da agressividade do melanoma, basta verificar as estimativas do Instituto Nacional do Câncer (Inca), anunciadas antes da pandemia de Covid-19: dos 183.390 novos casos previstos para 2020, 176.940 correspondem aos cânceres de pele menos agressivos – o basocelular e o espinocelular – e 8.450 ao melanoma. No entanto, em termos de mortalidade, o câncer de pele basocelular e espinocelular corresponde a 2.329 casos anuais e o melanoma a 1.791. Os números mostram que, embora o melanoma represente apenas 4,5% dos casos de câncer de pele, a doença é responsável por quase metade (43%) das mortes por tumores cutâneos.

Medicina de precisão

Entre os demais temas de destaque do evento está a evolução da medicina de precisão no combate às doenças oncológicas da pele. Em linhas gerais, a medicina de precisão consiste em aliar os dados já utilizados para o diagnóstico e tratamento – sinais, sintomas, história pessoal/familiar e exames complementares – ao perfil genético do paciente. Para Oliveira, um dos avanços importantes nessa área é o estudo genético da biópsia no laudo patológico. “Com as informações genéticas, é possível planejar um tratamento mais assertivo e personalizado para o paciente”, diz.

Além disso, o médico tem os recursos da imunoterapia e terapias-alvo, drogas que podem ser muito eficientes e, inclusive, tornar desnecessário submeter o paciente à cirurgia, mesmo em caso de melanoma. “No passado, para um paciente com diagnóstico de células cancerígenas no linfonodo sentinela, o primeiro do sistema linfático que drena o tumor, o tratamento cirúrgico era o indicado. Hoje, o oncologista, guiado pelo estudo genético, têm drogas que podem levar a resultados muito satisfatórios”, diz.

No entanto, essa é uma realidade no sistema privado de saúde, alerta Oliveira. No Sistema Único de Saúde (SUS), a imunoterapia e terapias-alvo, dependendo da região do país, são incipientes ou até inexistentes e os pacientes acabam tendo como opção de tratamento a cirurgia, em geral, com as bordas alargadas para diminuir os riscos de recidiva (volta da doença). Em casos com indicação cirúrgica, a atuação do cirurgião oncológico e do especialista em cirurgia plástica reparadora beneficia muito o paciente em relação à mutilação. “Essa parceria está presente no SUS e na saúde privada”, afirma Oliveira.

O maior congresso de pele da América Latina

Com 113 palestrantes e debatedores, o Congresso Brasileiro de Câncer de Pele é o maior nessa área já realizado na América Latina. Além dos principais nomes do país no tratamento multi e interdisciplinar, haverá aulas de expoentes da Oncologia Cutânea que representam instituições da Alemanha, Austrália, Canadá, Estados Unidos, França, Holanda, México e Panamá. Com olhar multidisciplinar, o público-alvo do Congresso é composto por cirurgiões oncológicos, oncologistas clínicos, radioterapeutas, dermatologistas, patologistas e cirurgiões gerais, dermatológicos, plástico e de cabeça e pescoço.

Além da organização da SBCO, SBOC e SBRT, evento conta com apoio das Sociedades Brasileira de Cirurgia Dermatológica (SBCD), Patologia (SBP), Cirurgia Plástica (SBCP), Cirurgia de Cabeça e Pescoço (SBCCP) e do Colégio Brasileiro de Cirurgiões (CBC).

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