Rede de pesquisa coordenada pelo LNCC vai conduzir estudo que reunirá dados sobre a dispersão e a mutação do novo coronavírus. Estudo incluirá a interação do vírus com os preditores genéticos do hospedeiro, a fim de desvendar os diferentes desfechos da doença

Os dados coletados sobre o novo coronavírus e seu hospedeiro serão processados no supercomputador Santos Dumont, adquirido pelo governo brasileiro e instalado no LNCC, em Petrópolis – Foto: LNCC

A geneticista Ana Tereza Ribeiro de Vasconcelos, pesquisadora do Laboratório Nacional de Computação Científica (LNCC), coordenará a Rede C1, formada a partir do edital de Ação Emergencial Projetos para Combater os Efeitos da Covid-19, uma parceria entre a Faperj e a Secretaria Estadual de Saúde. O projeto, intitulado “Corona-ômica – RJ: Plataforma computacional integrativa para caracterização de determinantes virais e do hospedeiro na Covid-19 utilizando abordagens ÔMICAS no estado do Rio de Janeiro”, também agrega a “Rede One Health para o monitoramento genômico e análise da dispersão em tempo real de SARS-CoV-2 com acesso universal da informação”, liderada pela pesquisadora Marilda Agudo Mendonça Teixeira de Siqueira, chefe do Laboratório de Vírus Respiratórios e do Sarampo do Instituto Oswaldo Cruz, da Fundação Oswaldo Cruz (IOC/Fiocruz) referência em coronavírus da Organização Mundial da Saúde (OMS) para as Américas.

“Esse apoio vem num momento perfeito, porque os recursos para os estudos com a Covid-19 não chegavam. E certamente a chamada da Faperj para a criação de redes é muito importante porque agrega instituições, amostras do vírus de diversas regiões do estado e pesquisadores com variadas formações, que poderão analisar os dados a partir de sua bagagem científica”, comemora Ana Tereza.

Chefe do Laboratório de Bioinformática do LNCC – que tem sede localizada na cidade de Petrópolis, na Região Serrana –, ela liderou a equipe que realizou em tempo recorde (48 horas), em março passado, o sequenciamento do novo coronavírus. Mas, segundo a pesquisadora, o estudo vinha utilizando recursos de outros projetos em andamento. “Por isso, até mesmo para enfrentar as consequências dos cortes de verbas, que vêm ocorrendo desde 2016, a Faperj tem sido fundamental no fomento à pesquisa”, reconhece.

A geneticista, que também recebe apoio da Faperj para suas pesquisas por meio do programa Cientista do Nosso Estado, diz que os recursos do edital serão extremamente importantes, não só para a realização da vigilância genômica do vírus, ou seja, para verificar como ele está se dispersando pelo estado do Rio, mas também para a realização de estudos do hospedeiro. Segundo ela, é importante verificar como acontece a interação do vírus com o ser humano, já que os danos provocados pelo vírus variam muito entre diferentes indivíduos. A pesquisa avaliará se preditores genéticos influenciam nos diferentes tipos de evolução da doença, além da idade, sexo e comorbidade dos pacientes. Um dos enigmas a serem esclarecidos é o fato de até mesmo pessoas sem comorbidade evoluírem para estágios graves da doença, incluindo o óbito. “O vírus é muito novo, teve contato com humano há apenas seis meses, por isso precisa ser bem estudado”, justifica Ana Tereza.

De acordo com a pesquisadora, a Corona-ônica é uma rede estadual que além do LNCC inclui o Laboratório de Virologia Molecular da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), a Universidade Estadual do Norte Fluminense (Uenf), o Departamento de Genética da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), o Instituto Fernandes Figueira, da Fiocruz, e a Escola de Matemática Aplicada da Fundação Getúlio Vargas (FGV). A rede desenvolverá estudos a partir de três ômicas: a genômica viral, para entender como o vírus se dispersa geograficamente e se vem sofrendo mutações; o estudo da transcritômica, que permite verificar os diferentes desfechos da Covid-19 em pessoas assintomáticas e nas que desenvolvem sintomas moderados e agudos. “Dessa forma é possível se identificar quais os genes estão sendo modulados em cada indivíduo, fazendo com que a doença se desenvolva de modo distinto”, explica Ana.

O estudo ainda incluirá o sequenciamento do exoma, que é uma fração do genoma de indivíduos, para verificar as variantes genéticas que levam ao desenvolvimento de diferentes desfechos da doença. Além disso, a pesquisa também abrangerá estudos de metagenômica, que estudará a população de microrganismos em geral, a partir da análise de amostras de swab naso ou orofaríngeo ou de outras regiões e órgãos a fim de identificar a microbiota, ou seja, vírus e bactérias circulantes. “Assim, acredito que na parte de genoma viral e de seu hospedeiro  teremos um estudo bem completo do Estado do Rio de Janeiro”, afirma a geneticista.

Graduada em Biologia pela Uerj, Ana Tereza cursou mestrado em Biofísica e defendeu doutorado em Genética, na UFRJ. No LNCC, ela atua com análise de sequências de DNA, com a parte computacional da genética, no sequenciamento de genoma. “Trabalho com genoma de vírus, bactéria, fungo, humano, animais”, conta. Segundo ela, a partir do sequenciamento são gerados bancos de dados, programas, softwares e modelos matemáticos, processados no maior computador da América Latina, o supercomputador Santos Dumont, instalado no LNCC.

Não à toa, o título do projeto que ela lidera propõe a criação de uma plataforma computacional integrativa. “A plataforma pretende integrar os dados do vírus e do hospedeiro, por meio de técnicas computacionais, estatísticas, uso da inteligência artificial, que extrairão as informações para processá-las de forma rápida”, explica a geneticista. Ao longo dos anos, Ana Tereza já foi contemplada em diversos programas de fomento à pesquisa da Faperj e, em 2019, teve uma proposta de pesquisa aprovada no Programa de Apoio a Projetos Temáticos no projeto “Inteligênciômica saúde: o uso de metodologias de inteligência artificial para identificação de preditores genéticos associados aos casos severos por arboviroses”, em colaboração com outros laboratórios. Prestes a completar 58 anos, mãe de dois filhos, a pesquisadora diz que trabalha em rede desde 2000, quando foi formalizado o Projeto Genoma Brasileiro.

Aprendiz de ceramista nas horas vagas (antes da pandemia, frisa ela), atividade que lhe permite relaxar e descarregar energias, Ana Tereza ainda encontra tempo – mesmo agora – para se engajar em defesa da ciência. Recentemente, auxiliou a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) a lançar a campanha “Democracia pela Vida”, movimento que reúne cerca de 70 organizações, entre entidades nacionais, centrais sindicais, movimentos sociais, articulações pró-democracia e organizações não-governamentais. “Precisamos nos unir em defesa da democracia, para enfrentar os ataques à ciência e às instituições de pesquisa”, defende.

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covid-19, Laboratório Nacional de Computação Científica

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