Em 1990, segundo semestre, os Laboratórios de Análises Clínicas do Rio Grande do Sul que realizavam atendimento ao Sistema Público então vigente ficaram quase seis meses sem pagamento e, evidentemente, não poderia ser de outra forma, os problemas financeiros se avolumaram e solução para os problemas não era encontrada.

A Secretaria Estadual da Saúde que seria a responsável em honrar os pagamentos alegava que o sistema era novo, não havia ainda uma sincronia com o Ministério da Saúde, que por sua vez afirmava que havia pouco tempo para as devidas atualizações, vinculadas a problemas do INAMPS – quem lembra? – cuja gestão teria sido transferida para lá há muito pouco tempo.

Entretanto, as informações além de nunca serem incisivas, quase sempre vinham de forma contraditória.

Há época eu era o Presidente do Sindicato dos Laboratórios do Rio Grande do Sul – Sindilac, e além de sentir o problema diretamente, era também o receptáculo das queixas, reclamações e lamentos, os mais justificados possíveis, de todos os nossos colegas.

Num determinado momento a inviabilização tomou conta da situação e não houve outra alternativa a não ser a de parar o atendimento ao Sistema INAMPS/SUS em Porto Alegre. Alguns municípios do interior, notadamente aqueles de maior dependência ao sistema público, também acompanharam o movimento.

Foi publicada no Jornal da maior circulação do Estado uma nota de página inteira dirigida à população e à classe médica onde era apresentado um histórico da situação de atraso de pagamento e principalmente das baixas remunerações, e o exemplo mais marcante era a comparação de que as principais dosagens em bioquímica tinham um preço muito assemelhado a um sorvete de palito dos mais simples. Esta comparação à época foi alvo de comentários, os mais variados possíveis no meio jornalístico local.

Passaram-se oito meses até que os pagamentos fossem totalmente normalizados.

Em 1994, quando da implantação do plano real, foi criada uma nova tabela de procedimentos, a primeira e única produzida na era SUS, para o setor laboratorial. Ao tomar conhecimento da mesma, a atitude inicial deste escriba foi ir à procura dos valores dos principais procedimentos em bioquímica. Neste momento uma surpresa extremamente agradável. Com o valor de uma glicemia seria possível adquirir 4,625 sorvetes no palito. Sem dúvidas uma excepcional valorização dos nossos serviços.

Um pouco mais adiante, então diretor da SBAC, numa daquelas conversas de fim de reunião fiz a proposição aos nossos pares de criarmos alguma coisa comparável a uma situação tragicômica, em que pudessem ser comparados os valores dos exames a um produto de elevado consumo e, assim, de um modo quase lúdico, poder acompanhar a evolução dos preços dos exames remunerados pelo SUS.

Desta forma foi criado o índice Chicabom. Nome sugerido pelas coisas boas da infância e adolescência a que esse nome remetia.

Por volta do ano 2000 o índice chegou a 1,0.

Portanto, para que pudéssemos adquirir um Chicabom seria necessário o valor uma dosagem de glicose no sangue pela tabela SUS.

As coisas foram evoluindo em todos os sentidos. Os procedimentos laboratoriais cada vez mais exatos e precisos.  Equipamentos mais resolutivos, a cultura técnica dos nossos profissionais sempre crescente. Cada vez mais aflorando o compromisso com a saúde pública e a ciência. Esta conjunção de fatores que tornaram o laboratório clínico o fator imutável para que 70% das decisões clínicas sejam tomadas através de testes laboratoriais.

Entrementes o Sr. Ricardo Barros, certamente um excepcional administrador de obras, atualmente ocupando o cargo de Ministro da Saúde, no programa Roda Viva da TV Cultura queixa-se da cultura de solicitação de exames, de que 80% dos exames de imagem são normais, que 50% dos procedimentos laboratoriais sequer são retirados e outros impropérios.

Imagina-se que na assessoria do Sr. Ministro existam também profissionais de Saúde. Estes poderiam informá-lo que todos os exames dentro dos limites da normalidade significam um tratamento ou uma internação a menos.

Sinalizam também que esses procedimentos devam ser incluídos em todo e qualquer processo de prevenção e que pelas quantias ínfimas que o seu Ministério despende nesses exames,  despesas de muito maior expressão financeira poderão  ser evitadas.

Assim funciona a medicina preventiva.

Ah, ia esquecendo.

Normalmente a época que utilizo para medir o índice Chicabom é no verão, à beira da praia. Certamente por relembrar os bons tempos do passado.

Lamentavelmente perdeu a graça. O índice agora é 0,23125. Portanto, necessitamos 4,32 glicemias para adquirir um Chicabom.

Uma severa radicalização deverá ser implantada.

A troca do indicador. Quem sabe, a partir de agora o índice possa ser um caramelo, mas de boa qualidade. Aqueles que não colam nos dentes.

Sugestões serão aceitas.

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Irineu Grinberg
Publicado por Irineu Grinberg

Irineu Grinberg é ex-presidente da Sociedade Brasileira de Análises Clínicas (SBAC). Email: [email protected]

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