Constatação, feita por pesquisadores do Laboratório Innovare, indica a necessidade de rediscussão das técnicas analíticas utilizadas atualmente

A metodologia desenvolvida pelos pesquisadores da Unicamp foi baseada no uso do espectrômetro de massas, equipamento extremamente versátil e preciso. Foto: Antoninho Perri

Pesquisadores do Laboratório Innovare de Biomarcadores, vinculado à Faculdade de Ciências Médicas (FCM) e à Faculdade de Ciências Farmacêuticas (FCF) da Unicamp, identificaram a presença de compostos utilizados na fabricação de embalagens a vácuo em peças de carnes acondicionadas nesse tipo de invólucro. A constatação foi feita por meio de metodologia desenvolvida especificamente para esse fim, que contou com o uso da espectrometria de massas, técnica analítica extremamente versátil e precisa. Segundo o professor Rodrigo Ramos Catharino, coordenador do Innovare, os resultados do estudo indicam a necessidade de se repensar os métodos analíticos empregados atualmente, que não são capazes de detectar a migração de contaminantes das embalagens plásticas para os alimentos.

Conforme Catharino, as metodologias utilizadas para verificar a migração de compostos presentes nas embalagens para os alimentos nelas contidos são aplicadas por meio de modelagem, e não a partir de testes em alimentos propriamente ditos. “Sempre houve a discussão se esse tipo de análise conseguiria estabelecer um retrato real da migração dos compostos que constituem o plástico para os alimentos. A resposta dada pelo nosso trabalho é não, visto que as análises anteriores apontavam para a não ocorrência dessa transferência”, explica o docente.

De acordo com ele, o desenvolvimento da metodologia que permitiu identificar com precisão a migração dos compostos do plástico para os cortes de carne representa uma quebra de paradigma. “Mais que isso, os resultados que obtivemos servem de alerta para a população e para os órgãos fiscalizadores quanto à necessidade de revisão dos procedimentos e normas em vigor, de modo a oferecer maior segurança aos consumidores”, entende. Catharino lembra que as carnes embaladas a vácuo são largamente consumidas pela população, devido à sua praticidade. Em geral, as pessoas não se dispõem a enfrentar filas nos açougues, alegando falta de tempo.

O coordenador do Innovare aponta que nos testes realizados pelo laboratório foram utilizados cortes de carnes bovinas adquiridos em supermercados. “Primeiro, nós caracterizamos a embalagem, para identificar a sua composição. Depois, analisamos cortes de carne que não foram embalados a vácuo e cortes que foram, de modo a estabelecer parâmetros para comparações. A carne que não tinha sido acondicionada em invólucro não apresentou qualquer traço de compostos, como era de se esperar. Entretanto, nos cortes que foram embalados a vácuo nós identificamos quatro compostos (Phthalic Anhydride, Stearamide, Diisooctyl phthalate e Polyethylene glycol), todos eles impróprios para ingestão”, pontua.

Um dado que traz preocupação adicional, afirma Catharino, é que os contaminantes não estavam presentes somente na superfície da carne, parte que entra em contato direto com a embalagem. “Nós encontramos esses compostos também nas partes internas do alimento. Além disso, esses contaminantes são termoestáveis, o que quer dizer que não são destruídos durante o processo de cocção. Ao contrário, eles se concentram. O que precisamos responder, a partir de novas pesquisas, é qual o nível de exposição a essas substâncias proporcionado por essa migração, qual o nível de toxicidade desses compostos e que efeitos eles podem proporcionar para o organismo em caso de consumo prolongado”, acrescenta o docente.

Técnica versátil

A metodologia desenvolvida pelos pesquisadores do Innovare foi baseada no uso do espectrômetro de massas, equipamento extremamente versátil e preciso. A tecnologia tem a capacidade tanto de determinar quanto de quantificar a presença de determinadas moléculas numa dada amostra, por menor que elas sejam. “Isso nos dá uma segurança muito grande quanto à qualidade da análise”, diz Catharino. Segundo ele, o estudo em torno da migração de contaminantes das embalagens a vácuo para os cortes bovinos foi realizado no contexto da tese de doutorado da farmacêutica Tatiane Melina Guerreiro. O trabalho rendeu um artigo científico que foi publicado em julho do ano passado no periódico Food Research International. “A publicação tem tido ótima repercussão. Vários colegas têm entrado em contato conosco para pedir mais detalhes sobre a pesquisa”, revela o docente.

Ainda segundo Catharino, os temas investigados pelo seu grupo de pesquisa sempre estão relacionados ao cotidiano das pessoas. “Nós procuramos dar respostas científicas a problemas que preocupam o cidadão comum ou que possam contribuir para ampliar a sua qualidade de vida. É uma forma de retribuirmos os impostos pagos pela sociedade, que financiam a universidade pública”, esclarece. Outro projeto nessa linha, adianta o docente, é um estudo em andamento relacionado aos medicamentos genéricos. Os pesquisadores querem propor uma metodologia que estabeleça a necessidade de se promover ensaios de pré-bioequivalência, para averiguar a segurança desses produtos.

Catharino explica melhor a questão: “Atualmente, nós promovemos somente os estudos de bioequivalência, que verifica basicamente se os princípios ativos estão presentes no medicamento, na quantidade indicada. Ocorre que não basta constatar esse aspecto. Por hipótese, o princípio ativo pode estar lá, mas acompanhado de substâncias tóxicas geradas durante o processo de síntese. Nesse caso, o medicamento genérico pode estar muito mais próximo do produto falsificado do que do medicamento de referência. O que nós queremos é chamar a atenção para a importância de se olhar para a cadeia, ou seja, atentarmos não somente para a presença do princípio ativo, mas também para outras substâncias que não deveriam estar ali”.

Nos ensaios realizados em laboratório, a equipe coordenada por Catharino utilizou medicamentos aplicados no tratamento de disfunção erétil, conhecidos popularmente por “azuizinhos”. “Nós optamos por analisar esses medicamentos porque são amplamente consumidos no mundo todo, inclusive no Brasil, e porque são alvos constante de falsificações”. O grupo do Innovare tem atuado, ainda, num projeto que deve resultar numa proposta de reclassificação da obesidade. Os critérios baseados somente no Índice de Massa Corpórea (IMC), de acordo com o pesquisador, não retratam com tanta precisão as condições de um paciente obeso. “Aprimorando essa classificação, certamente podemos melhorar o tratamento dessas pessoas”, infere Catharino. O estudo relativo às embalagens a vácuo foi financiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp). Com informações da Unicamp

Tags:

carnes, embalagens a vácuo, espectrometria de massas, Laboratório Innovare de Biomarcadores

Compartilhe: