Nas colunas anteriores foram analisados diversos fatores presentes no universo das análises clínicas, onde se identificou aspectos tais como: a) importância de um laboratório clínico implantar um sistema de gestão profissional visando enfrentar os imensos desafios dos tempos atuais, tornar-se competitivo e ser rentável para os seus acionistas. b) a solução sugerida foi adotar um Sistema Integrado de Gestão (SIG), como decisão para um futuro inteligente. c) após, apresentou-se um referencial teórico sintético sobre o SIG. Passo seguinte se evidencia que para implantar um SIG, necessitamos de um método e das ferramentas adequadas para atingir o objetivo proposto. Foi escolhido e detalhado o método (PDCA/MASP) e as principais ferramentas por ele utilizadas na implantação do SIG. Ainda, este sistema é fundamentado nos princípios da gestão pela qualidade total (TQC/GQT) e, as ferramentas selecionadas foram: 1- Diagrama de Pareto; 2- Diagrama de causa e efeito (diagrama de Ishikawa ou espinha de peixe); 3- Histograma; 4- Folha de verificação; 5- Diagrama de dispersão; 6- Carta de controle; 7- Fluxograma. Finalmente, toda a equipe que forma a força de trabalho do laboratório clínico deve saber utilizar estas ferramentas e serem exímios solucionadores de problemas, através do conhecimento da análise de processos. As colunas seguintes abordam um eficiente sistema de gestão com aplicação prática e voltada para laboratórios e clínicas médicas, já implantado em dezenas de organizações, dos mais variados portes, englobando uma escala que inicia em 3.000 exames mensais e atinge 3.500.000. Trata-se do Sistema de Gestão Custo Certo – SGCC, desenvolvido por nós e sem similar no mercado, com resultados excelentes e quantificados, na busca do incremento da produtividade e da competitividade dos laboratórios clínicos brasileiros. Reiteramos que a nossa intenção é mostrar o que fazer, a razão de fazer e como fazer diretamente nas organizações. Elaboramos a abordagem inicial do SGCC, falamos dos seus objetivos, fizemos um breve histórico e o referencial teórico que fundamenta este sistema. Abordamos os termos e definições utilizados no referencial teórico do SGCC, tratamos dos sistemas de custeio de uma forma geral e detalhamos os custeios variável e marginal, pois são estes que são aplicados nas clínicas e laboratórios. Passo seguinte iniciamos o trabalho sobre um importante tema para qualquer organização, que é a “Decisão baseada em custos”. Estudamos o “Ponto de equilíbrio”, “Margem de segurança”, “Alavancagem empresarial”, “Formação de preços” e “Estratégias competitivas”. Iniciamos uma nova e importante etapa do SGCC, as suas “aplicações práticas”, mostrando como calcular os custos de produção dos exames. Inserido neste contexto, mostramos como calcular o custo nominal (reagentes e descartáveis específicos), consumíveis, calibradores, descartáveis, material de escritório e manutenções de equipamentos da produção. Finalmente tratamos da rentabilidade de parâmetros (exames); clientes (convênios); equipamentos e setores (áreas), teste e comparação de tabelas de preços. Complementamos com sugestões gerenciais para a prática do dia a dia dos gestores laboratoriais. Na coluna seguinte continuamos com o tema das aplicações práticas, abordando o produto “Desempenho da organização”, apresentando uma “Simulação da prática” da operação de um laboratório de pequeno porte. Com isto concluímos o Sistema de Gestão Custo Certo – SGCC. A coluna do capítulo 32 tratou da evolução do SGCC para um sistema implementado via Web, que reduz drasticamente os custos, viabilizando sua operação pelos pequenos e médios laboratórios de análises clínicas. Estamos falando do Programa de Proficiência em Gestão Laboratorial – PPGL, um software inédito no mundo, onde o seu principal diferencial é o processo de benchmarking competitivo. Foi feita uma introdução, breve histórico e apresentadas a visão, missão e os objetivos do PPGL. Passo seguinte tratou-se do referencial teórico do PPGL, indicadores de desempenho e modelo de operação do programa, encerrando a abordagem deste assunto. A coluna de hoje, capítulo de número 35, inicia um estudo muito importante para os laboratórios. Trata-se dos riscos organizacionais e, dentre estes, o risco de insolvência.

Gestão de riscos em laboratórios clínicos

Este tema sobre a gestão de riscos é desdobrado em três partes: a primeira consiste em uma breve revisão da bibliografia existente sobre o assunto; a segunda, uma nova teoria elaborada por mim e a terceira uma abordagem sobre a “Gestão de riscos em laboratórios clínicos no Brasil”, que será tratada no próximo capítulo, o de número 36.

Revisão bibliográfica

Um laboratório clínico é, em princípio, uma alternativa de investimento que deve ser comparada a outros investimentos de mercado, como por exemplo, carteira de ações, renda fixa, carteira de imóveis, dentre outras. Será bom negócio se o retorno esperado for maior que as alternativas propostas. Uma vez tomada à decisão de investir neste empreendimento e, para comparar resultados, basta confrontar diretamente os lucros obtidos. Entretanto, avaliar os riscos associados a cada um dos investimentos possíveis é uma tarefa bastante complexa.

Os investimentos de mercado (carteira de ativos) têm seus riscos avaliados em modelos baseados no conceito de carteiras eficientes que maximizam os retornos esperados para uma dada variância, tais como: Modelo de Precificação de Ativos (CAPM), Modelo de Precificação por Arbitragem (APT), Modelos Multifatoriais e Modelos Proxy. As formas para avaliar e apresentar os riscos presentes em um investimento são:

1) Valor ajustado ao risco (VAR): os valores ajustados para o risco tentam incorporar o efeito do risco em nossas estimativas para o valor de um ativo e utilizam, por exemplo, a abordagem de fluxos de caixa descontados, estimando uma taxa de desconto ajustada para o risco;

2) Abordagens probabilísticas: análise de cenários, árvores de decisão e simulação (Monte Carlo). Em vez de calcular um valor esperado que busque refletir diferentes desfechos possíveis, esses modelos nos permitem conhecer informações sobre qual o valor que o ativo terá para cada um dos desfechos possíveis ou, no mínimo, para alguns desfechos. Os laboratórios clínicos não dispunham até agora de instrumentos para avaliar o risco de insolvência, ficando limitados aos tradicionais da contabilidade geral e matriz de riscos, adotando ações preventivas basicamente com seguradoras.

O modelo inventado “Sistema de Gestão Custo Certo (SGCC)” veio preencher esta lacuna e proporcionar muitas ações preventivas e corretivas no universo da gerência destas organizações. Foram construídos indicadores de desempenho que definem as variáveis probabilísticas presentes na realidade destas empresas tais como volume de mercado, porte, “qualidade de mercado” representada pelo preço médio de venda pago pelos clientes, comportamento dos custos fixos e variáveis, eficiência do controle exercido, mediante índices de produtividade, dentre outras variáveis.

As distribuições de frequência foram feitas a partir de séries históricas oriundas das quarenta empresas em que o modelo foi implantado. Ainda, são identificadas correlações de qualidade entre as variáveis pela presença de elementos comuns nas formulações, estimando causa e efeito. A escala métrica intervalar para a medição do risco de insolvência foi elaborada com base estatística do banco de dados oriundo das quarenta organizações estudadas, observando o comportamento posterior à implantação do modelo, reproduzindo, portanto, a realidade decorrente da experiência vivida e refletida.

Aswath Damodaran, no seu livro “Gestão Estratégica do Risco”, afirma que “a experiência torna mais fácil o processo de estimativas e diminui os erros de estimativa, em comparação com a avaliação de um projeto único”. Não há dúvida de que toda a formulação feita a partir de uma base de dados reais já tem sua validação fortalecida.

Por definição de risco entende-se que ele é inerente à vida; risco e sobrevivência andam juntos desde o homem das cavernas, uma vez que quem se arriscava, conseguia alimentação. A própria evolução da civilização somente foi possível porque pessoas se arriscaram para testar as invenções: ferramentas, automóveis, aviões, foguetes, vacinas, remédios, etc. Alguém se dispôs a correr riscos e desafiar o estado das coisas.

Muitos dos riscos que corremos não são voluntários, pois mesmo que estejamos no lugar mais seguro do planeta, corremos o risco de um infarto do miocárdio, AVC e outros eventos desta natureza. Mas, além dos riscos involuntários, muitas vezes, tomamos a decisão de correr riscos. Dirigir em alta velocidade, e muitas vezes alcoolizados, praticar esportes radicais, apostar em jogos de azar. Podemos correr riscos investindo em projetos de novas empresas no ramo da tecnologia (start up), sem qualquer risco físico, ao passo que quem pratica esportes radicais fica sujeito a grandes riscos físicos sem nenhuma recompensa econômica, ao contrário, pagando por isto. Na época das grandes navegações, os pobres arriscavam a própria vida, pois eram os tripulantes das embarcações; já os ricos comerciantes arriscavam o capital investindo nas frotas e mercadorias, porém, ambos visando ao esperado retorno.

O próprio sistema de certificação para a construção naval, origem das normas “ISO” e as apólices de seguros nasceram da necessidade de reduzir os riscos inerentes à navegação. O risco está presente em todas as atividades, tendo tantas definições quanto às áreas de atuação, da Engenharia à Economia, passando pela Biologia. Talvez, a definição mais abrangente venha do Oriente, do ideograma chinês utilizado para definir “risco”, que combina os conceitos de “perigo” e “oportunidade”, representando os aspectos da perda e do ganho numa distribuição de resultados. Esta definição pressupõe que qualquer ação de minimização dos riscos reduz também a expectativa das oportunidades. A Engenharia nos fornece também uma boa definição para o risco: é o produto da probabilidade de um evento indesejável (acidente) ocorrer pelo prejuízo (financeiro ou vidas) estimado para a ocorrência desse evento. No âmbito das finanças, a definição de risco é dada em termos da variabilidade dos retornos observados de um investimento em comparação com o retorno esperado do investimento, mesmo quando esses retornos representam resultados positivos.

De uma forma geral, podemos dizer que o risco é a possibilidade de perda decorrente de um determinado evento. E isto sob o ponto de vista das organizações, perda significa prejuízo, lucro menor ou redução de ativos. Pelo exposto, fica evidente que a busca obstinada pela redução máxima dos riscos tem um custo considerável e que as empresas para obter sucesso não devem eliminar os riscos, mas detectá-los e explorá-los em proveito próprio. Portanto, a gestão do risco além de buscar reduzir a exposição ao risco, deve também identificar quais riscos e em que proporções se expor.

Que riscos devem ser explorados e quais as melhores maneiras de se fazer isto são questões inerente à gestão de riscos empresariais. Eis alguns:

A) Risco empresarial total: segundo Paulo Sérgio M. dos Santos em “Gestão de riscos empresariais”, é o somatório de todos os riscos ao qual uma empresa está exposta, sejam eles oriundos do ambiente externo ou do âmbito interno da organização.

Estes riscos estão classificados conforme quadro a seguir. Em função do propósito da coluna, somente serão tecidos comentários sobre alguns destes riscos que consideramos mais importantes.

Quadro – Classificação dos riscos empresariais. Fonte: Gestão de riscos empresariais, 2002, pg. 25.

Do risco empresarial total, os que apresentam a maior amplitude para os laboratórios clínicos, de uma forma geral, são os descritos a seguir.

a) Macroambiente:

1) Risco Político/legal: é mais importante para os pequenos  laboratórios clínicos que têm uma dificuldade maior de atendimento dos requisitos legais impostos pelos órgãos regulatórios e de fiscalização vinculados aos governos, por exemplo, as vigilâncias sanitárias nos níveis municipal, estadual e federal. Existem os riscos de notificação, multa, interdição ou até fechamento de unidades. Complementarmente as legislações trabalhista, comercial, fiscal, cambial, financeira e de propriedade intelectual impactam nas empresas.

2) Econômico: os laboratórios clínicos são diretamente afetados por planos ou pacotes governamentais, altas taxas de inflação, taxas de juros, recessões, taxas de câmbio, safras agrícolas, níveis de desemprego e outros eventos desta natureza.

 3) Risco tecnológico: novamente os pequenos e médios laboratórios clínicos são os mais suscetíveis a este tipo de risco em função da dificuldade financeira de manter o parque produtivo atualizado tecnologicamente. A velocidade de lançamento de novos equipamentos decorrente do processo de industrialização da produção de exames é inexorável. As pequenas e médias empresas não têm capacidade de financiamento para compra ou volume de produção suficiente para operações tipo comodato. O risco de sucateamento do parque produtivo é significativo.

b) Ambiente setorial:

1) Risco de fornecedores: impactam, principalmente, os pequenos e médios laboratórios clínicos que não conseguem negociar bons preços para os insumos, perdendo competitividade. A distância dos centros de distribuição e a guerra fiscal entre estados da federação contribuem para onerar mais ainda os negócios. Finalmente, o porte dos fornecedores em relação aos compradores ajuda a impor preços mais elevados às mercadorias.

2) Risco de concorrentes: normalmente não são feitas pesquisas de mercado, por parte dos empreendedores do setor dos laboratórios clínicos por ocasião de aberturas de novos negócios. Isto leva a uma expansão de novas organizações localizadas, muitas vezes, em regiões de mercado saturado, repercutindo em todo o ambiente setorial. Ainda, fusões e aquisições impactam de forma profunda neste tipo de risco, atingindo grandes e pequenos empreendimentos.

3) Risco de clientes: atualmente em função das campanhas de conscientização dos consumidores, Código de Defesa do Consumidor, mobilização de escritórios de advocacia e intercâmbio de informações entre países, está em desenvolvimento uma cultura de promoção de ações civis na área da saúde. Muitas vezes, no caso de um pequeno laboratório clínico, basta uma ação perdida para eliminar todo o lucro de um ano de operações.

c) Riscos financeiros:

1) Risco de liquidez: está mais presente novamente nas pequenas e médias empresas e, sobretudo, naquelas cuja gestão é familiar. Muitas vezes, é oriundo do desequilíbrio financeiro/econômico decorrente do hábito de não distinguir entre os recursos da organização e os recursos das pessoas físicas dos proprietários (Faltando com o Princípio da Entidade).

2) Riscos de crédito: no Brasil, as taxas de juros estão entre as mais elevadas do planeta e isto é mais acentuado para as operações de curto prazo. Muitos pequenos e médios laboratórios clínicos – normalmente familiares, cujos executivos financeiros foram “formados” na rotina diária da própria empresa, sem a capacitação adequada à função – fazem operações de capital de giro normalmente financiadas no curto prazo, justamente as linhas de crédito mais caras.

Também ocorre que o financiamento para os investimentos – sejam eles em equipamentos, mobiliário e, até imóveis operacionais – serem feitos com capital próprio ao invés de terceiros, com linhas especiais e juros baixos de longo prazo. Finalmente, o financiamento a clientes (convênios) normalmente é “esquecido” pelos empresários, mas o custo do faturamento pago em 30, 60 ou mais dias é relevante para os resultados dos laboratórios clínicos.

d) Riscos operacionais gerais:

1) Da estrutura de custos: consideramos o maior risco presente nos laboratórios clínicos. A razão fundamental disto é extremamente simples e decorre do fato de que TODOS (simplesmente todos) os custos incorridos em uma empresa têm uma fonte responsável (uma origem, uma autoria) e, por razões óbvias, este agente responsável – seja ele um fornecedor de qualquer insumo ou até o sindicato dos empregados – estará empenhado em controlar cada centavo fornecido sob qualquer motivo. Controlar significa que irá cobrar a quitação nos prazos, aplicar juros de mora, colocar em cartório se necessário for, mas não é somente isto. Irá também procurar incrementar de forma sistemática o volume e ou o valor de qualquer insumo, fornecer menos por mais.

Considerando as centenas de insumos de um laboratório clínico, haverá dezenas de pessoas fiscalizando os prazos de pagamento e buscando majorar, sempre que possível volume e preço dos insumos. Entretanto, são poucas as pessoas numa pequena ou média empresa e, até, numa grande organização a gerenciar todo o elenco de fornecedores. Adicionalmente, a tendência natural do ser humano é não conseguir manter controles rígidos por longos períodos de tempo, existindo ainda, certa compulsão pelo consumo. A combinação destes fatores tende levar a estrutura de custos ao desequilíbrio e, muitas vezes, até à insolvência da organização.

2) De sucessão: este risco é mais presente em laboratórios clínicos cuja gestão não é profissionalizada. Soma-se a isto o aspecto de ser familiar ou não. Cada vez mais existem consultorias para preparar as empresas para enfrentar o risco da sucessão, fruto da importância deste evento.

e) Riscos operacionais funcionais:

1) Da área de compras: principalmente nas grandes corporações é um setor mais sensível a desvios e furtos. Agrega-se a isto, a possibilidade de que os suprimentos não sejam gerenciados de forma eficiente, tanto no aspecto dos custos de aquisição como no controle de estoques. Para os pequenos e médios laboratórios clínicos, o principal risco é o decorrente do baixo poder de negociação com os fornecedores, fato que reduz a rentabilidade final dos negócios.

2) Das áreas de marketing/vendas: este risco está relacionado com os de mercado e concorrência e afeta diretamente as receitas dos laboratórios clínicos impactando na competitividade empresarial.

3) Da área de produção/logística: os riscos presentes aqui envolvem um grande elenco de possibilidades, que vão desde falhas no suprimento de insumos básicos/matéria-prima,  até a ocorrências com processos de clientes, decorrentes da má qualidade e dos erros na elaboração dos laudos dos exames.

4) Da área de sistemas/internet: atualmente, praticamente nenhuma organização opera de forma independente da tecnologia de informação. Panes nesta área podem conduzir até à paralisação total das operações. A pertinência dos sistemas de informática às necessidades dos laboratórios clínicos é fundamental para os resultados destas empresas.

5) Da área contábil/fiscal: o Brasil tem atualmente uma das maiores cargas tributárias do mundo aliada a um sistema fiscal extremamente complexo. A principal consequência disto é uma queda da rentabilidade das organizações brasileiras que conduz, muitas vezes, ao risco de insolvência. A prova desta constatação é o volume de empresas em dívida com o fisco, o elevado número destas presentes nos programas de financiamento de dívidas tributárias (REFIS e outros).

O sistema de arrecadação de impostos é extremamente eficiente, as multas implacáveis e desproporcionais. Uma empresa que tenha dificuldade para honrar os compromissos com o fisco num determinado mês, dificilmente irá se recuperar no seguinte, fato que gera multas. Isto cria uma espiral que conduz a dívidas praticamente impagáveis, obrigando os governos a proporem os referidos programas de financiamento ou até mesmo ao fechamento das empresas.

f) Ações de gestão:

Normalmente encontramos nos chamados sistemas de gestão balanceada (BSC), sob a perspectiva financeira, que um dos fatores críticos de sucesso é exatamente a gestão de riscos. O BSC é parte importante do planejamento estratégico de uma organização e contempla uma atenção especial para a análise dos riscos. Portanto, recomenda-se que a gestão de riscos seja considerada como um assunto de importância estratégica para os laboratórios clínicos.

Dependendo do porte da empresa, deve ser avaliada a possibilidade de criação de uma área específica com esta finalidade. De qualquer forma, recomenda-se  pelo menos um profissional voltado para este segmento. Pode ser criado um comitê de gerenciamento de riscos para atuar em conjunto com outras áreas que pela afinidade de propósitos, podem agir de forma sinérgica com o comitê. Citamos as áreas de compliance, controladoria, auditoria e seguros. Estas áreas dispõem de ferramentas para identificar riscos tais como a “tempestade de ideias”, correlação linear entre a produção, custos variáveis e fixos da organização com inflação, taxas de câmbio e de juros, Produto Interno Bruto (PIB) e outros.

O comitê deve elaborar uma matriz de riscos, onde são identificados os principais riscos, atribuídas notas para cada um em função da probabilidade de ocorrência e da repercussão na empresa e, por fim, um plano de ações para prevenir a ocorrência e em último caso, minimizar o efeito. Complementarmente, o comitê deve se valer das análises de balanços, operações com seguradoras, informações cadastrais e sobre a concorrência, agir em conjunto com sindicatos e sociedades científicas na área política/legal e utilizar modelos matemático-financeiros para a gestão de riscos. O SGCC oferece aos seus usuários um relatório específico para análise do risco, sua mensuração e identificação das causas prováveis, restando ao gestor somente a decisão para a tomada de ações preventivas ou corretivas em tempo hábil.

Teoria da Operação Ótima

Os laboratórios clínicos são pessoas jurídicas com características próprias. Cada um com o seu modelo de gestão, sua visão, sua missão ou política da qualidade, seus princípios, valores ou objetivos da qualidade. A interação disto tudo conduz a uma ética empresarial, define um perfil de gestão, um comportamento organizacional. Portanto, combinando estes fatores com os riscos do ambiente, se produzirão múltiplos resultados. Normalmente, estes resultados apresentam relações que talvez possam ser parametrizadas no futuro.

Vamos apresentar a seguir nossa tese sobre este assunto, ficando claro desde já que se trata de uma teoria, ensejando comprovação metódica das suas hipóteses no futuro. Fica o desafio.

A) Relação entre Lucro Líquido Unitário, Produção e Ética, conforme gráfico a seguir.

Gráfico – Relação entre lucro, produção e ética. Fonte: o autor

Conceitos:

1 – Ética: segundo o dicionário Aurélio Buarque de Holanda, é o estudo dos juízos de apreciação que se referem à conduta humana susceptível de qualificação do ponto de vista do bem e do mal, seja relativamente à determinada sociedade, seja de modo absoluto. Segundo VALLS (1993, p. 7), “a ética é daquelas coisas que todo mundo sabe o que são, mas que não são fáceis de explicar, quando alguém pergunta”. É possível perceber a ética de forma abrangente como a ciência do comportamento humano;

2 – Ética empresarial: comportamento organizacional decorrente da visão, missão e valores do laboratório clínico no completo atendimento dos seguintes quesitos:

– Requisitos legais relativos às pessoas jurídicas (Alvarás…);

– Requisitos legais relativos ao exercício profissional (RDC’s da ANVISA…);

– Adesão voluntária aos programas oficiais de acreditações e certificações de terceira parte (ONA, ISO, DICQ, PALC);

– Compromisso social com os empregados (Programa de participação nos resultados – PPR, política de benefícios…);

– Compromisso social com a comunidade em geral (Assistencialismo, exames gratuitos para segmentos especiais da população…);

– Compromisso efetivo com o meio ambiente (Tratamento de resíduos, compensação de carbono, economia de insumos…).

3 – Lucro líquido unitário: definido pela razão entre o lucro final do exercício e o número de exames faturado no período;

4 – Produção: número de exames realizados no período considerado do estudo.

Observa-se, aqui, que todas estas variáveis são passíveis de mensuração. A escala da ética pode ser construída a partir do nível de atendimento aos quesitos que a definem. Então, em um estudo científico é possível construir estas curvas e estimar parâmetros para ajustar as equações pertinentes.

Hipóteses:

– A tendência do lucro líquido unitário é reduzir com o aumento da produção até o chamado “Ganho de escala” que sintetiza a premissa de “Ganhar menos de muitos”;

– Laboratórios clínicos com pequeno volume de exames, ou seja, baixa produção, tendem a enfrentar maiores dificuldades para atender níveis elevados de ética empresarial;

– Os maiores lucros líquidos unitários tendem a estarem mais presentes nas pequenas e médias organizações;

– Existe um nível mínimo de produção (Pmin) para atender os compromissos mínimos com a ética empresarial (Emin). Portanto, a ética e por decorrência a qualidade tem um custo considerável.

B) Relação entre Lucro Líquido Unitário, Nível de risco e Perfil de Gestão, conforme gráfico a seguir:

Gráfico – Relação entre lucro, risco e perfil da gestão. Fonte: o autor.

Conceitos:

1 – Risco: definido qualitativamente pela probabilidade do laboratório clínico vir a sofrer:

– Notificações da Vigilância Sanitária;

– Multas;

– Interdições temporárias;

– Processos judiciais oriundos de clientes;

– Processos judiciais oriundos de fornecedores;

– Processos judiciais oriundos de empregados;

– Processos judiciais oriundos de órgãos públicos;

– Concordata ou falência.

2 – Perfil da gestão: definido pelo nível de atendimento à integralidade dos quesitos presentes na ética empresarial. Se colocado em um eixo, o sentido do perfil da gestão é inverso ao sentido da ética, ou seja, o perfil de gestão temerário é aquele que menos atende aos quesitos da ética empresarial. O perfil conservador é o que mais atende estes mesmos quesitos.

Observa-se, aqui, que todas estas variáveis são passíveis de mensuração. A escala do risco pode ser construída a partir do nível de atendimento aos requisitos que o definem. Idem para a mensuração do perfil da gestão, pois este tem o sentido contrário ao da ética, que já foi vista. Então, em um estudo científico é possível construir estas curvas e estimar parâmetros para ajustar as equações pertinentes.

Hipótese:

Quanto mais temerário for o perfil da gestão do laboratório clínico, maior será o risco e maior será a tendência do lucro líquido unitário.

Em função do exposto, elaboramos a Teoria da Operação Ótima, conforme demonstrado a seguir.

C) Teoria da Operação Ótima:

Gráfico – Teoria da Operação Ótima. Fonte: o autor.

1 – Tese:

Existe uma área de operação ótima delimitada pelo perfil da gestão, lucro e ética empresarial, em função do risco assumido. Esta área proporciona uma operação com razoável segurança, nível ético aceitável e lucro competitivo, decorrentes de um perfil moderado da gestão. Qualquer operação fora desta área ótima incorrerá em prejuízo de uma ou mais das variáveis. O perfil da gestão é a variável que irá determinar o comportamento das demais.

A próxima coluna continuará com este assunto, porém apresentando um artigo científico que aborda a gestão de riscos em laboratórios clínicos no Brasil.

Até lá pessoal e que Deus vos acompanhe!

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Humberto Façanha
Publicado por Humberto Façanha

Atualmente é diretor da Unidos Consultoria e Treinamento e professor da Pós-Graduação em Análises Clínicas do curso de Biomedicina – Instituto Cenecista de Ensino Superior de Santo Ângelo (IESA). Professor do Centro de Pós-Graduação da Sociedade Brasileira de Análises Clínicas – CPG/SBAC. Mestre em Administração pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), Engenheiro Eletricista pela Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) e Engenheiro de Segurança do Trabalho pela Universidade de Passo Fundo (UPF). Especialista em Engenharia de Análise e Planejamento de Operação de Sistemas pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG/ELETROBRAS), formação em gestão da qualidade e Auditor Líder em ISO 9000. Contatos: [email protected] e [email protected]

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