Microbiota intestinal de mosquito transmissor da dengue e de percevejos resistentes a inseticidas é o foco de pesquisas desenvolvidas na Université Claude Bernard Lyon 1 e apresentadas na Fapesp Week France

O mosquito-tigre-asiático é um dos vetores da dengue e hoje está presente em todos os continentes, com exceção da Antártica

Mais da metade da população mundial corre risco de contrair doenças infecciosas transmitidas por mosquitos nos próximos anos. Com as mudanças climáticas, essas chamadas arboviroses – antes um problema concentrado nas zonas tropicais do planeta – passam a ocorrer também em locais de clima temperado.

“Estudos recentes indicam que as bactérias presentes no intestino dos mosquitos transmissores contribuem para o potencial adaptativo desses insetos. É importante, portanto, estudar fatores genéticos, microbiológicos e ecológicos para entender o potencial invasivo, por exemplo, do mosquito-tigre-asiático [Aedes albopictus]”, disse Claire Valiente Moro, do Laboratoire d’Ecologie Microbienne, da Université Claude Bernard Lyon 1, em palestra apresentada no dia 22 de novembro na Fapesp Week France.

O mosquito-tigre-asiático é um dos vetores da dengue e hoje está presente em todos os continentes, com exceção da Antártica. Originário da Ásia, o inseto tem apresentado um potencial adaptativo alto, sendo encontrado tanto em áreas de clima tropical quanto de clima temperado. Recentemente, o governo francês emitiu alertas sobre a presença do mosquito no país.

Um estudo recente, liderado por Valiente Moro, comparou a microbiota de mosquitos-tigre-asiático capturados em uma floresta no Vietnã com a de insetos da mesma espécie capturados na França. Os pesquisadores observaram que os intestinos desses insetos eram habitados predominantemente por bactérias Dysgonomonas sp e que havia maior variedade de cepas nos mosquitos vietnamitas.

Análises genéticas mostraram uma correlação entre a diversidade bacteriana no intestino e a diversidade genética das populações de mosquito. “É possível que fatores ambientais e atividades humanas influenciem a diversidade da microbiota intestinal do mosquito e este é um fator que não deve ser negligenciado quando se estuda arboviroses”, disse a pesquisadora.

Um dos objetivos do grupo é avaliar a influência das mudanças climáticas na variedade da microbiota dos mosquitos Aedes albopictus da França e do Vietnã.

Combate ao percevejo

Pesquisadores franceses também estudam a relação de simbiose que existe entre os insetos da espécie Cimex lectularius, conhecido como percevejo de cama (bedbug), e as bactérias do gênero Wolbachia.

“Esse percevejo é um parasita humano e se alimenta apenas de sangue – uma dieta não balanceada. Descobrimos que a bactéria intracelular é sua fonte de vitamina B e tem, portanto, um papel essencial para a sobrevivência do inseto”, disse Natacha Kremer, pesquisadora da Université Claude Bernard Lyon1.

Segundo a pesquisadora, o uso constante de inseticidas fez com que os percevejos adquirissem resistência a partir dos anos 1990. “Em 2017, foram registradas 180 mil infestações e, em 2019, foram 360 mil. Precisamos urgentemente de métodos de controle, por isso a necessidade de estudar esse tipo de relação de mutualismo”, disse.

O grupo busca entender melhor a dinâmica entre a bactéria e o percevejo com o objetivo de identificar uma estratégia para combater o inseto.

O simpósio Fapesp Week France aconteceu entre os dias 21 e 27 de novembro, graças a uma parceria entre a Fapesp e as universidades de Lyon e de Paris, ambas da França. Com informações da Fapesp

Tags:

análises genéticas, arboviroses, doenças infecciosas, mosquitos

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