Pesquisa que reuniu 313 pacientes com perda auditiva identificou a mutação no gene MYO6 em 13 pessoas de quatro gerações de uma mesma família, ampliando o painel de rastreamento genético de surdez

Para que o sequenciamento fosse realizado, o DNA dos pacientes foi extraído a partir de 200 microlitros de sangue

Um estudo brasileiro publicado na revista científica Annals of Human Genetics, identificou uma nova mutação associada com perda auditiva em membros de uma mesma família. Após a leitura completa do exoma (fração do genoma que codifica as informações contidas nos genes) pela técnica de sequenciamento de nova geração, uma alteração no gene MYO6 foi encontrada nas amostras de sangue dos 13 pacientes de quatro diferentes gerações de uma mesma família. O sequenciamento e a análise foram realizados em colaboração com Laboratório de Biologia Molecular da GeneOne, marca de genômica do Grupo Dasa.

O estudo Exome Sequencing Identifies a Novel Nonsense Mutation of MYO6 as the Cause of Deafness in a Brazilian Family reuniu 313 pacientes que apresentam perda auditiva e que são acompanhados na Unidade de Aconselhamento Genético de Surdez do Departamento de Otorrinolaringologia do Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo (HC-USP). A doença com característica familiar foi identificada em 100 indivíduos (31,9% dos casos), sendo que a maioria apresentou alterações já associadas com surdez hereditária nos genes GJB2 e GJB6, diagnosticadas em 12,7% dos pacientes com perda auditiva.

Como se chegou ao MY06?

O grande desafio dos autores estava em elucidar a ocorrência de surdez em muitos membros de uma mesma família que, após o teste genético, não apresentavam mutação nos genes mais comuns relacionados com surdez hereditária. Com a proposta de buscar novos marcadores (mutações em genes que se associam com a predisposição hereditária), foram selecionadas quatro famílias para a leitura do exoma. Foi então que a variante no gene MYO6, nunca antes descrita, foi encontrada em todas as pessoas de uma dessas famílias.

Atualmente, há cerca de 100 genes que compõem o painel de investigação de surdez hereditária (que respondem por 70% dos casos de surdez familiar) e, com os dados trazidos nesse estudo, a variante encontrada no gene MYO6 passa a ser incorporada no protocolo de rastreamento genético. “A descoberta dessa mutação germinativa amplia o entendimento das causas que levam à perda precoce da capacidade auditiva, impactando positivamente no acompanhamento clínico dos pacientes”, explica a biomédica do Laboratório de Biologia Molecular do GeneOne, Layla Testa Galindo, uma das autoras do estudo.

Ao contrário das mutações somáticas (que são as alterações celulares – não corrigidas – que ocorrem ao longo da vida), as mutações germinativas são herdadas, aumentando a predisposição do indivíduo a desenvolver a doença. A mutação no gene MYO6 é classificada como nonsense (quando há uma parada no processo de leitura da sequência de DNA e a proteína produzida passa a não ser funcional). As mutações tipo nonsense costumam ser mutações mais agressivas do que as missenses (quando há uma simples troca nos pares de bases – as combinações de letras ACTG – que compõem o genoma). O gene MYO6 codifica a proteína miosina VI, que é essencial para o desenvolvimento, integridade estrutural e funcionamento apropriado das células ciliadas do ouvido.

Sequenciamento de nova geração

De todas as amostras analisadas previamente, as mutações nos genes GJB2/GJB6 esclareceram 12,7% dos 313 casos. Foi então que quatro famílias, que não apresentaram a mutação diagnosticada, tiveram o seu material genético submetido a uma nova análise, que investigou o exoma por sequenciamento de nova geração.

Para que o sequenciamento fosse realizado, o DNA dos pacientes foi extraído a partir de 200 microlitros de sangue. Durante quatro dias, o laboratório realizou todos os procedimentos necessários para preparar as amostras de DNA para serem sequenciadas. Após esse processo, as amostras foram inseridas no Ion Proton (Thermo Fisher), equipamento que realiza o sequenciamento de nova geração (NGS, na sigla em inglês). A leitura no sequenciador leva apenas quatro horas.

Complexa, a análise do exoma contempla em torno de 200 mil exons de um genoma. Desse total, os autores separaram 50 mil variantes e, após diferentes filtros, chegaram em duas variantes heterozigóticas associadas à doença. Uma delas foi encontrada em alguns membros, mas foi negativa em outros. Enquanto que a outra, a variante no gene MYO6, teve a penetrância de 100% em uma das famílias.

A identificação de novos genes que explicam a surdez hereditária amplia a possibilidade de o paciente ser diagnosticado precocemente e, desta forma, ser inserido em um suporte interdisciplinar, que inclui fonoaudiólogos, otorrinolaringologistas, audiologistas, geneticistas, dentre outros. As principais intervenções que podem beneficiar esses pacientes são o uso de próteses auditivas, implantes cocleares e outros dispositivos auxiliares; além do aprendizado de linguagem de sinais e outras formas de apoio educacional e social e do aconselhamento genético para outros membros da família.

Epidemiologia da surdez

A perda auditiva é um dos defeitos neurossensoriais mais comuns em humanos.  De acordo com a Organização Mundial de Saúde, 360 milhões de pessoas em todo o mundo têm perda de audição incapacitante, sendo que 32 milhões delas são crianças. As principais causas de surdez são mutações genéticas hereditárias, complicações ao nascer, algumas doenças infecciosas, infecções crônicas da orelha, uso de drogas específicas, exposição ao ruído excessivo e envelhecimento.

Estima-se que cerca de 60% da perda auditiva infantil é devida a causas evitáveis. Atualmente, 1,1 bilhão de jovens entre 12 e 35 anos estão em risco de perda auditiva devido a exposição ao ruído em ambientes recreativos. Com o progresso do pré-natal e da atenção precoce à saúde pós-natal, a maioria dos diagnósticos de surdez se dá ainda na fase pré-lingual (aquela que se instala antes que a criança tenha tido o contato com a linguagem oral suficiente para aprender a ler, falar ou entender a fala). Do total de casos hereditários, 50% a 60% são diagnosticados já no pré ou pós-natal. No Brasil, estima-se que em cada mil crianças nascidas, quatro apresentam perda auditiva.

Sobre a GeneOne

A GeneOne é a marca de medicina genômica do Grupo Dasa. Com corpo científico e médico altamente especializado, oferece a investigação genética de alterações associadas com predisposição hereditária para desenvolvimento de doenças, além de testes genéticos relacionados a oncologia e onco-hematologia. As principais frentes de atuação são Oncogenética, Cardiogenética e Doenças Raras, assim como investigações por meio de biópsia líquida, testes preditivos para fármacos, dentre outras estratégias de medicina personalizada.  A GeneOne dispõe de um amplo portfólio de testes genéticos, equipamentos e metodologias de última geração, parcerias internacionais e estrutura de bioinformática para a interpretação dos dados gerados e produção de estudos de ciência básica, clínica e translacional.

Tags:

exoma, gene MYO6, mutação, perda auditiva, sequenciamento de nova geração

Compartilhe: