Dr. Adagmar Andriolo

Por Milena Tutumi

O câncer de próstata é o segundo mais comum entre homens no Brasil, o que implica na iminência de um diagnóstico precoce. Comumente, o rastreio da doença se dá pela medida do antígeno prostático específico (PSA) no sangue, entretanto sua utilização tem sido alvo de controvérsias. Os fatores incluem a baixa especificidade, como ressalta o médico patologista clínico e ex-presidente da Sociedade Brasileira de Patologia Clínica/Medicina Laboratorial (SBPC/ML), Adagmar Andriolo, ao seu uso em larga escala, o que estaria propiciando o sobrediagnóstico e indução ao tratamento excessivo, como uma prostatectomia para casos de câncer que não evoluiriam de forma agressiva e não colocariam a vida do paciente em risco.

Esta situação se deve, principalmente, ao fato de que a medida isolada do PSA não fornece informação suficiente para uma avaliação precisa do grau de agressividade do eventual tumor existente, e avaliar cada caso individualmente, bem como  acompanhar a velocidade da alteração dos níveis do marcador, torna-se fundamental.

Em conversa com o Portal LabNetwork, o Dr. Adagmar Andriolo abordou a problemática do rastreio do câncer de próstata com o PSA, os critérios de avaliação dos níveis do marcador, bem como as implicações de um diagnóstico incerto seguido de tratamentos errôneos. Confira a seguir.

Portal LabNetwork: Qual a importância do PSA para a detecção do câncer de próstata?
Dr. Adagmar Andriolo: O PSA é o marcador tumoral mais comumente utilizado na prospecção do câncer da próstata, tendo em vista sua elevada sensibilidade. Uma grande limitação de seu uso é a relativa inespecificidade, uma vez que pode estar elevado em outras doenças ou condições que afetam a próstata.

Portal LabNetwork: Qual a orientação preconizada atualmente para a realização do exame?
Dr. Adagmar Andriolo: A orientação atual é que todo homem acima de 50 anos (ou acima de 45 anos que tenha um familiar de primeiro grau que tenha sido afetado por câncer de próstata) seja orientado pelo médico clínico geral ou urologista sobre a conveniência de realizar tanto o exame digital retal como a medida do PSA. Após este esclarecimento, é decisão do paciente em realizar ou não o exame.

Portal LabNetwork: Quais os potenciais riscos e benefícios do exame?
Dr. Adagmar Andriolo: Dentre os riscos, está a inespecificidade já referida, que pode induzir a falso diagnóstico positivo para câncer. Outra questão é a tendência sobre tratamento. Nem todos os cânceres de próstata necessitam de tratamento radical e um tratamento como a prostatectomia (retirada da próstata e das vesículas seminais, assim como de linfonodos pélvicos nos casos de doença de maior risco) pode causar incontinência urinária e impotência sexual.

Portal LabNetwork: Hoje o PSA é o exame mais confiável para a detecção da doença? Quais as outras alternativas?
Dr. Adagmar Andriolo: Como primeira abordagem, e em associação com o exame digital retal sim, na sequência, pode estar indicado o exame de imagem – ressonância magnética multiparamétrica. Na dependência do valor do PSA, pode estar indicada a medida do p2PSA e do cálculo do Índice de Saúde da Próstata (PHI, do inglês). Finalmente, a biópsia prostática é o recurso final para o diagnóstico definitivo.

Portal LabNetwork: Podemos estabelecer níveis críticos de PSA que seguramente indiquem a presença da doença?
Dr. Adagmar Andriolo: Não existem níveis críticos. Por exemplo, o indivíduo pode ter um PSA 1ng/mL e se passar para 2ng/mL, num prazo de três meses, é um problema. Se o nível do PSA estiver em 4ng/mL e passar para 5ng/mL nesses três meses, pode não representar nada. É muito arriscado estabelecer valores, que podem induzir a interpretações e conclusões errôneas, pois há uma série de fatores que precisam ser avaliados individualmente.

Portal LabNetwork: Que fatores podem interferir no exame oferecendo falsos resultados?
Dr. Adagmar Andriolo: Praticamente, não existem casos de falsos negativos no diagnóstico do câncer de próstata. É exceção o uso de alguns medicamentos como finasterida, por exemplo, que reduzem os níveis de PSA. Os falsos positivos incluem a existência de processos infecciosos e inflamatórios na próstata, traumatismo prostático, como o provocado pelo ciclismo ou hipismo e uma razão fisiológica que é a hiperplasia benigna da próstata.

Portal LabNetwork: Há casos específicos em que o PSA não é indicado?
Dr. Adagmar Andriolo: A medida do PSA não está indicada como triagem populacional indiscriminada, sem decisão consciente do paciente em autorizar sua realização, em indivíduos com menos de 40 anos ou 70 anos de idade e em indivíduos cuja expectativa de vida seja inferior a 10 anos.

Portal LabNetwork: Qual o papel do clínico na orientação ao exame? Que recomendações podem ser passadas ao paciente?
Dr. Adagmar Andriolo: O clínico exerce papel fundamental ao orientar o paciente em relação ao risco de desenvolver a doença – dependendo de sua história familiar e etnia (indivíduos afrodescendentes têm maior risco de desenvolver a doença), de sua idade e decisão consciente de realizar a medida do PSA. As recomendações para a realização do exame são: não utilizar bicicleta, nem a ergométrica, duas semanas antes da coleta do sangue, não manter relação sexual (ativa ou passiva) 48 horas antes da coleta do sangue, não realizar exame digital retal 24 horas antes da coleta do sangue e não ter sintomas de infecção urinária no momento da coleta de sangue.

Portal LabNetwork: Há alguma orientação especial que o senhor daria na investigação da doença?
Dr. Adagmar Andriolo: Hoje, vale uma recomendação quanto ao novo exame PHI, que deveria ser realizado quando o PSA estiver entre 2ng/mL e 10ng/mL. Temos visto muitos colegas usando indiscriminadamente e não faz muito sentido já que fora dessa faixa não há poder conclusivo.

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Adagmar Andriolo, antígeno prostático específico (PSA), Câncer de Próstata

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