Primeiro experimento viabilizado pela companhia levará proteína do vírus SARS-CoV-2 ao espaço, e próxima etapa testará absorção de vitaminas por leveduras, simulando a ação do aparelho digestivo humano

O projeto contempla uma parceria com a empresa de logística Airvantis e o CNPEM para viabilizar o experimento que consiste em cristalizar proteínas no espaço

A Cimed, terceira maior farmacêutica brasileira em volume de vendas, está iniciando uma importante movimentação científica espacial que pode colocar o Brasil em posição de destaque nos próximos anos. Isso porque a companhia prevê um investimento de R$ 300 milhões, em um período de cinco anos, para pesquisa e desenvolvimento de novos produtos – também por meio de estudos no espaço. O intuito é incluir o desenvolvimento científico espacial entre os pilares da empresa – que já tem seu foco na acessibilidade a seus produtos e, ainda, planeja duplicar sua capacidade produtiva.

O Cimed X – projeto de longo prazo da companhia – contempla, na primeira fase, uma parceria com a empresa de logística Airvantis e o Centro Nacional de Pesquisa em Energia e Materiais (CNPEM), organização supervisionada pelo Ministério de Ciência, Tecnologia e Inovações (MCTI), para viabilizar o experimento que consiste em cristalizar proteínas no espaço – técnica já utilizada há mais de 20 anos e que permite explorar as condições de microgravidade, buscando obter cristais de proteína de melhor qualidade.

Em dezembro, as amostras preparadas por pesquisadores do CNPEM serão enviadas para o módulo japonês da Estação Espacial Internacional (ISS), KIBO, em parceria com empresas japonesas e a própria agência espacial do Japão, a JAXA. Em órbita, um astronauta executará o experimento brasileiro e, após três meses ou quatro meses, se bem-sucedido, as amostras contendo cristais de proteína retornarão à Terra para serem analisadas no Sirius, o acelerador de partículas do Centro. O centro de pesquisa, instalado em Campinas (SP), possui recursos na fronteira da ciência, que permitem gerar imagens tridimensionais de proteínas com resolução atômica.

Segundo Celso Benedetti, pesquisador do CNPEM, este experimento é parte de uma pesquisa que tem como objetivo revelar a estrutura atômica da proteína nucleocapsídeo do vírus SARS-CoV-2 ligada a uma molécula de RNA. “Ainda não conseguimos obter cristais da proteína N nessas condições em solo, de forma que a cristalização em microgravidade pode significar um importante avanço. Se tivermos êxito na obtenção desses cristais no espaço, eles serão analisados no Sirius, usando uma técnica chamada cristalografia. Esta análise é capaz de revelar a posição de cada um dos átomos que compõem a proteína estudada para investigar a ação que ela tem no organismo e sua interação com princípios ativos candidatos a fármacos”.

Para o primeiro experimento do projeto, que é realizado em parceria com a empresa de logística espacial Airvantis, a Cimed dará suporte financeiro em todas as etapas. “Acreditamos que a investigação por meio dos experimentos espaciais é vital para contarmos com uma indústria farmacêutica nacional mais bem preparada em atender às diversas necessidades de saúde atuais e futuras”, explica João Adibe Marques, presidente da companhia.

Adibe explica ainda que a empresa segue no propósito de desenvolver medicamentos de qualidade a preços acessíveis, assim como vitaminas e produtos de higiene e beleza, mas que passará a investir, também, em pesquisas espaciais para o desenvolvimento de novos produtos, com foco em medicina preventiva e regenerativa. “Trata-se de um novo pilar da Cimed, que tem como objetivo ampliar o acesso da população à saúde e, ainda, contribuir com o acervo da ciência brasileira”, conclui.

Os resultados da nova iniciativa podem auxiliar na compreensão sobre o modo de ação do vírus e na busca de novos tratamentos eficazes. “Há muitas oportunidades a serem exploradas no campo da medicina e da biologia em termos de experimentos espaciais, e é uma grande satisfação podermos colaborar na realização de trabalhos brasileiros na Estação Espacial Internacional”, diz Lucas Fonseca, CEO da Airvantis.

A cristalização das proteínas no espaço

Desde o início da pandemia, muita atenção tem sido dada à proteína S (de Spike, ou espícula), que tem um papel fundamental na capacidade do patógeno de infectar as células humanas. Contudo, outras proteínas do vírus também têm ação importante, como é o caso da proteína Nucleocapsídeo, também chamada de proteína N, que desempenha um importante papel no ciclo de vida do vírus, sobretudo no “empacotamento” do RNA genômico dele, durante a formação de novas partículas virais. Entender como essa proteína se liga ao RNA viral poderá abrir novas possibilidades para o desenvolvimento de drogas que possam bloquear essa função da proteína e, assim, reduzir a replicação do vírus. Como a estrutura atômica da proteína N inteira em complexo com o RNA ainda não foi elucidada, os pesquisadores apostam que a cristalização no ambiente de microgravidade da estação espacial poderá ajudar.

Os cristais proteicos são formações em que as moléculas se solidificam de forma ordenada e que, vistos do microscópio, possuem aparências semelhantes às dos minerais. A partir de cristais mais bem formados, é possível obter informações fundamentais sobre a estrutura atômica da proteína, com um grau de detalhamento muito superior, quando comparado aos obtidos a partir de cristais crescidos em Terra.

Investimentos em Pesquisa & Desenvolvimento (P&D)

A Cimed é uma das poucas empresas do setor farmacêutico a ter o seu próprio centro de bioequivalência e a única a realizar todas as etapas de estudos necessárias – clínica, analítica e estatística – para o registro de medicamentos genéricos e similares. Tudo isso é realizado no Instituto Claudia Marques de Pesquisa e Desenvolvimento (ICM P&D), criado em 2004.

Além do financiamento do estudo no espaço, para cristalização do vírus que causa a Covid, o investimento de R$ 300 milhões em cinco anos contemplará, ainda, a possibilidade de realizar outras etapas da jornada de pesquisas espaciais com estudos científicos, proprietários da Cimed, relacionados à absorção de vitaminas e longevidade.

A iniciativa inclui o Brasil na nova economia espacial, colocando o país em evidência no pioneirismo da participação de empresas e instituições privadas nas pesquisas espaciais. Com o patrocínio privado à iniciativa, por meio da Cimed, ganha-se presença nacional nos estudos realizados no espaço e em experimentos futuros, qualificando instituições brasileiras como investidoras relevantes de tecnologias na fronteira do conhecimento.

Tags:

Cimed X, movimentação científica espacial

Compartilhe: