Por Alvaro Largura, PhD, MBA – farmacêutico-bioquímico
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Elevações dos níveis de PCR foram detectadas em mais de 70 condições clínicas, incluindo infecções agudas, infarto agudo do miocárdio, doenças reumáticas e neoplasias. foto: freedigitalphotos

Devido às múltiplas aplicações da Proteína C Reativa (PCR) na clínica médica, as solicitações deste exame têm crescido de forma exponencial no Brasil e em diversos países do mundo1. A PCR foi descoberta em 1930, portanto, são mais de 80 anos de uso. Várias técnicas laboratoriais foram usadas e aperfeiçoadas ao longo dos anos. É uma proteína sintetizada pelo fígado, sendo um dos marcadores de fase aguda mais sensíveis e utilizados para a inflamação. Os níveis de PCR começam a elevar-se 4 a 6 horas após o estímulo, duplica a cada 8 horas e atinge o pico entre 30 e 50 horas. Tem uma meia vida plasmática de 19 horas e pode levar vários dias até retornar a níveis basais2. Por essa razão, dosagens seriadas ao longo de vários dias são mais úteis que resultados isolados3.

Sua função é ligar-se a patógenos e células lesadas e ou apoptóticas e iniciar sua eliminação por meio da ativação do sistema complemento e fagócitos. É um constituinte normal do soro humano e, em condições normais, mantém concentrações inferiores a 0,6 mg/dL (valor de referência) para doenças inflamatórias.

Elevações dos níveis de PCR foram detectadas em mais de 70 condições clínicas, incluindo infecções agudas, infarto agudo do miocárdio, doenças reumáticas e neoplasias. Este breve artigo tem o objetivo de apresentar alguns dados atuais da literatura enfatizando as principais indicações do uso do teste PCR na rotina ambulatorial e hospitalar.

 

No diagnóstico e prognóstico de sepse

Inúmeros estudos descreveram uma boa sensibilidade e especificidade da PCR para o diagnóstico de sepse. Mais importante, a resposta da PCR, nos primeiros dias de antibioticoterapia, pode sugerir a adequação da resposta ao tratamento da infecção e ao prognóstico4. Foi avaliada a correlação dos níveis séricos de PCR com os sítios de infecção mais frequentemente relacionados à ocorrência de sepse em UTIs cirúrgicas ou mistas. Observou-se que as concentrações séricas de PCR foram significativamente mais elevadas nos pacientes com sepse de origem abdominal do que em pacientes com sepse de origem pulmonar nos cinco primeiros dias de evolução da sepse5.

Neste estudo analisaram-se 345 pacientes que preenchiam critérios de sepse, sepse grave e choque séptico. Diversos estudos têm avaliado o uso da proteína C reativa (PCR) e da procalcitonina (PTC), ambas proteínas de fase aguda, na diferenciação entre SRIS (Síndrome da Resposta Inflamatória Sistêmica) de origem não-infecciosa e infecciosa (sepse), observando que tanto a PCR (> 10 mg/dL) quanto a PCT (> 2 ng/mL), são indicadores específicos de infecção bacteriana e encontram-se em níveis progressivamente maiores nos pacientes com sepse, sepse grave e choque séptico.6,7

 

Na doença cardiovascular

O papel dos marcadores inflamatórios na avaliação de risco cardiovascular e o desenvolvimento de doença cardiovascular têm sido um tema de discussão durante quase duas décadas. Em 1998, a American Heart Association (AHA) examinou estratégias para a identificação de pacientes que necessitam de prevenção. A conferência concluiu que os marcadores inflamatórios, incluindo a proteína C reativa de alta sensibilidade (PCRus), ainda não era aplicável para avaliação de rotina devido à falta de padronização, a consistência em dados epidemiológicos, e provas para predição8.

Após 2003 a PCRus foi identificada não apenas como um marcador inflamatório de aterosclerose e eventos coronarianos, mas também um mediador de doença em função de sua contribuição na formação da lesão, na ruptura da placa e nos mecanismos de trombose coronariana. Seus efeitos diretos pró-aterogênicos estendem-se também às células musculares lisas, e assim suas funções como fator aterosclerótico e adicional com marcador de risco se fazem verdadeiros9.

A PCRus é importante para a prevenção primária e secundária assim como níveis de LDL-c, critérios de Framingham e síndrome metabólica, podendo ser de grande relevância quando associada aos outros fatores de risco clássicos como a LDL, por exemplo10. Nos casos de Síndrome coronária Aguda (SCA) e Infarto Agudo do Miocárdio (IAM), a PCRus mostra-se um bom preditor de eventos a médio (u, mês) e a longo prazo (um ano), também observados nos casos de tratamento invasivo.11

Acrescenta valor prognóstico ao escore de Framingham, à síndrome metabólica, ao perfil lipídico, à pressão arterial com ou sem a presença de aterosclerose subclínica, podendo ser considerados os valores de até 0,1 mg/dL, entre 0,1 mg/dL e 0,3 mg/dL e >0,3mg/dL como, respectivamente, baixo risco, moderado e alto risco.12

 

No diagnóstico e prognóstico de câncer

O câncer de mama é o segundo tipo de câncer mais comum em todo o mundo e, de longe, o tipo de câncer mais frequente entre as mulheres com uma estimativa de 1,67 milhões de novos casos de câncer diagnosticados em 2012 (25% de todos os cânceres)13. Uma meta análise que envolveu 5.286 casos de câncer de mama, concluiu que os níveis elevados de PCR estão associados com maior risco de câncer de mama.14 Uma pesquisa publicada no acesso BioMed Central da revista Breast Cancer Research demonstra que os níveis elevados de PCR são preditivos de mau prognóstico para quem sofre de câncer de mama. Esta análise pode permitir aos médicos alterar suas táticas de tratamento e melhorar as taxas de sobrevivência ao câncer.15 A falta de nexo causal entre os níveis de PCR elevado e aumento do risco de câncer, não invalida o potencial uso clínico do PCR, ele pode prever o risco de certos tipos de câncer, e auxiliar a melhorar o estadiamento e alocação de tratamento em pacientes com diagnóstico de câncer. Um recente estudo de 474 pacientes com adenocarcinoma de pâncreas (CP) tratados durante oito anos, permitem concluir que o teste de PCR pode ser considerado um fator independente de prognóstico do CP.16 De acordo com publicação do Journal of Clinical Oncology (março de 2015), após análise de resultados de 1.444 amostras de pacientes com melanoma, a PCR foi considerada também um fator independente de prognóstico do melanoma.17

 

Bibliografia

1. Aguiar FJ, Ferreira-Junior M, Sales MM, Cruz-Neto LM, Fonseca LA, Sumita NM, Duarte NJ, Lichtenstein A, Duarte AJ. C-reactive protein: clinical applications and proposals for a rational use. Rev Assoc Med Bras. 2013 Jan-Feb;59(1):85-92

2.Mitaka C. Clinical laboratory differentiation of infectious versus non-infectious systemic inflammatory response syndrome. Clin Chim Acta. 2005;351:17-29.

3. Ho KM. An update on C-reactive protein for intensivists. Anaesth Intensive Care. 2009;37:234-41.

4. Orati JA, Almeida P, Santos V, Ciorla G, Lobo SM.Serum C-reactive protein concentrations in early abdominal and pulmonary sepsis. Rev Bras Ter Intensiva. 2013 Mar;25(1):6-11.

5. Levy MM, Fink MP, Marshall JC – 2001 SCCM/ESICM/ACCP/ATS/SIS International Sepsis Definitions Conference. Intensive Care Med, 2003;29:530-538.

6. Ugarte H, Silva E, Mercan D et al – Procalcitonin used as a marker of infection in the intensive care unit. Crit Care Med, 1999;27:498-504.

7. Michelle L. Knight. The Application of High-Sensitivity C-Reactive Protein in Clinical Practice. US Pharm. 2015;40(2):50-53.

8. Szmitko PE, Wang CH, Weisel RD, et al. New markers of inflammation and endothelial cell activation. Circulation. 2003;108(16):1917-923.

9. Bodi V, Sanchis J, Llàcer A, et al. Independent role of C reactive protein to predict major events at one-month and at one-year in acute coronary syndrome without ST elevation. Med Clin (Barc). 2004;122(7):248-52.

10. Ridker PM. Inflammation in atherothrombosis: how to use high-sensitivity C-reactive protein in clinical practice. Am Heart Hosp J. 2004;2(4 suppl 1):4-9.

11. Tsimikas S, Willerson JT, Ridker PM, et al. C-reactive protein and other emerging blood biomarkers to optimize risk stratification of vulnerable patients. J Am Coll Cardiol. 2006;18(47):C19-31.

12. Ferlay, J. et al.GLOBOCAN 2012 v1.0, Cancer Incidence and Mortality Worldwide: IARC CancerBase No. 11 [Internet]. Lyon, Fr. Int. Agency Res. Cancer.2013. Available from: http://globocan.iarc.fr, accessed on 06/2015.

13. Guo L, Liu S, Zhang S, Chen Q, Zhang M, Quan P, Lu J, Sun X. C-reactive protein and risk of breast cancer: A systematic review and meta-analysis. Sci Re. 2015 May 22;5:10508. doi: 10.1038/srep10508

14. Allin KH, Nordestgaard BG, Flyger H, Bojesen SE Elevated pre-treatment levels of plasma C-reactive protein are associated with poor prognosis after breast cancer: a cohort study. Breast Cancer Res. 2011 Jun 3;13(3):R55. doi: 10.1186/bcr2891.

15. J Szkandera, M Stotz, G Absenger, T Stojakovic, H Samonigg, P Kornprat, R Schaberl-Moser, W AlZoughbi, C Lackner, A L Ress, F S Seggewies, A Gerger1, G Hoefleran, M Pichler .Validation of C-reactive protein levels as a prognostic indicator for survival in a large cohort of pancreatic cancer patients. British Journal of Cancer (2014) 110, 183–188. doi:10.1038/bjc.2013.701.

16. Fang S, Wang Y, Sui D, Liu H, Ross MI, Gershenwald JE, Cormier JN, Royal RE, Lucci A, Schacherer CW, Gardner JM, Reveille JD, Bassett RL, Wang LE, Wei Q, Amos CI, Lee JE.J  C-reactive protein as a marker of melanoma progression.Clin Oncol. 2015 Apr 20;33(12):1389-96. doi: 10.1200/JCO.2014.58.0209. Epub 2015 Mar 16.PMID:25779565.

Tags:

inflamação, Proteína C Reativa, sepse

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