Fica evidente que os laboratórios com menor rentabilidade vão demorar mais tempo para se recuperarem. Este fato já era logicamente esperado, o estudo visou quantificar este lapso de tempo para a recuperação. No caso destes laboratórios (início da escala), um mês de “Isolamento social” praticamente irá consumir os lucros de um ano

Minha formação básica é na área das ditas ciências exatas (que às vezes não são tão exatas assim, do contrário não existiria a relatividade) e nos últimos 23 anos estou progredindo em função do convívio com o universo das análises clínicas. Obrigado a todos e principalmente a todas que me ensinaram e ensinam de forma permanente. Estamos vivendo, talvez os tempos mais difíceis desta geração, em função da Covid-19. A luta é literalmente pela sobrevivência física e evitando a falência jurídica, contudo, creio que haverá mais falências do que falecidos. Não tem espaço para discussão moral: uma única vida perdida não tem preço que quantifique! Que isto fique bem claro. Não tenho competência para debater a exatidão e a precisão das decisões tomadas pelas autoridades médicas no campo de epidemiologia. Minha proposta é analisar os fatos e constatações na área econômica e financeira para os pequenos e médios laboratórios do País. Tenho acompanhado o excelente debate sobre se os laboratórios podem ou devem abrir as suas portas, debate este que envolve aspectos legais (hierarquia das leis), econômicos, técnicos e morais. Não vou me aprofundar neste assunto, até pela sua exaustão. Foi aqui citado somente porque existe o ponto de vista econômico, este sim, o motivo do artigo.

Numa análise de extremos, laboratório fechado não existe sob a ótica de empreendimento, portanto, havendo condições legais e técnicas, moralmente devemos operar o negócio (laboratório). Então, qual a repercussão nos laboratórios clínicos, de um Decreto-lei (DL) que obriga uma determinada comunidade ao chamado “Isolamento social”? Partindo da premissa anterior de que o laboratório permanecerá aberto, a sua “Produção” (totalidade dos exames vendidos) deverá em média atingir em torno de 20% da produção normal (exceção para laboratórios hospitalares), conforme observado nestes primeiros dias. Se permanecer fechado, obviamente será nula. Ainda, para a análise que farei, levei em consideração as seguintes premissas:

– O Brasil é um País de dimensões continentais, com muitas realidades (particularidades) diferentes. Por exemplo, tem variações no “Valor médio dos exames – Ticket médio” de até 600%, segundo banco de dados da Unidos Consultoria e Treinamento. Qualquer estudo, certamente, não abrangerá o universo do mercado. Aliás, esta é uma limitação do próprio método estatístico.

– Nosso banco de dados abrange mais de uma centena de laboratórios, de todas as regiões do País, dos mais diversos portes (de 5.000 a 4 milhões de exames mensais). Todos os dados foram coletados de forma padronizada, permitindo comparações entre si, gerando um sistema de benchmarking competitivo e de cooperação com âmbito nacional, único no Brasil.

– A análise foi elaborada em regime econômico (não financeiro), partindo do princípio de que os laboratórios têm capital de giro suficiente para bancar a operação, ou seja, não serão tomados empréstimos bancários, portanto, não serão pagos juros. Ainda, admite-se que tudo que foi produzido será efetivamente recebido, logo, sem glosas, sem inadimplências etc.  Em suma, no mundo real deverá ser pior.

– O cálculo foi realizado considerando o “Isolamento social” para um período de 30 dias. Enfatizamos, não se trata de um estudo com o rigorismo de um trabalho científico da Academia, contudo, primou pela qualidade dos dados originais e, creio que é suficientemente conciso para embasar decisões gerenciais no âmbito dos laboratórios clínicos.

– O estudo levou em conta a “Margem líquida de lucro em relação à produção – MLL%”; os “Custos fixos – CF”; o “Lucro”; a “Margem de contribuição”; a “Produção” e, por fim, o “prazo de recuperação” do “shutdown econômico”.

– Finalmente, o estudo apresenta perda progressiva da precisão/exatidão na proporção direta do aumento da taxa de crescimento do percentual produzido em relação à produção normalmente realizada pelo laboratório. Dito de outra forma, os resultados serão mais verdadeiros se o laboratório não produzir exames durante o “Isolamento social” e serão nulos se o laboratório tiver uma produção igual aos tempos de normalidade.

Resultados

Análise e discussão

Fica evidente que os laboratórios com menor rentabilidade vão demorar mais tempo para se recuperarem. Este fato já era logicamente esperado, o estudo visou quantificar este lapso de tempo para a recuperação. No caso destes laboratórios (início da escala), um mês de “Isolamento social” praticamente irá consumir os lucros de um ano. Na realidade objetiva dos fatos, certamente isto irá ocorrer, pois o regime financeiro é implacável e “cobra” o seu preço. Se o “Isolamento social” for decretado por dois meses, o laboratório irá operar dois anos sem lucrar. Como os empresários vão viver? Quem sabe de “PAItrocínio”, não há outro jeito! Já para a situação de ML = 10%, onde se enquadram uma boa parte dos laboratórios, o prazo de recuperação do shutdown passa a ser de um semestre ou um ano para o caso de dois meses de “Isolamento social”. Na melhor das hipóteses, a metade do ano já está perdida. Finalmente, mesmos os laboratórios com grande margem de lucro, levarão mais de meio ano para se recuperarem, na condição de dois meses de “Isolamento social”. Quais as consequências disto tudo?

Consequências prováveis

– Empobrecimento generalizado (pelo menos transitoriamente) dos laboratórios clínicos.

– Queda na competitividade empresarial.

– Aumento do risco de insolvência.

– Aumento da ocorrência de inadimplências na cadeia produtiva das análises clínicas, impactando em todos os fornecedores de insumos: reagentes, controles, calibradores, equipamentos e afins (Câmara Brasileira de Diagnóstico Laboratorial – CBDL); laboratórios de apoio; prestadores de serviços terceirizados (Contadores etc.); Sindicatos; Sociedades Científicas (SBAC, SBPC/ML) e, até mesmo, os Conselhos Profissionais. Ninguém escapará de compartilhar os prejuízos, pois toda a riqueza começa nos laboratórios, e como vimos, eles serão duramente atingidos.

– Risco de queda na qualidade dos serviços prestados. Sabemos que nem todos os laboratórios realizam os controles internos e externos exigidos na forma da lei, menos ainda é o número deles que têm certificações e acreditações de terceira parte. Então, não seria de estranhar se esta situação se agravasse em meio a pandemia da Covid-19, considerando ainda que, o preço da qualidade existe e não é baixo, sendo o seu retorno no curto e médio prazo, praticamente só na esfera moral (ética no coletivo), ainda que organize e proporcione controle dos processos. O verdadeiro retorno financeiro, que é de difícil mensuração, ocorrerá somente no longo prazo, fruto de uma característica intangível: a credibilidade disseminada no inconsciente coletivo, envolvendo desde clientes (usuários finais), médicos até os fornecedores. Sintetizando, toda a comunidade em torno do laboratório. Tudo isto, em tempos de crise aguda, poderá ser abalado, pois somente os que forjaram o caráter fundamentado em princípios de elevada moral, não sucumbem à tentação de reduzir a qualidade quando o mercado se torna extremamente adverso.

– Mais do que nunca será imprescindível que os pequenos e médios laboratórios adotem um sistema de gestão profissional. Não há mais espaço para amadorismo nos negócios na área das análises clínicas. O futuro destas organizações dependerá disto!

Bem pessoal, era isto que eu tinha para compartilhar com vocês nestes momentos difíceis que estamos passando. Estou fazendo a minha parte, compartilhando o pouco que acho que sei. Este deve ser o compromisso das pessoas: fazer a sua parte na cadeia universal de dependência entre todos os seres de todos os reinos.

Que Deus nos abençoe!

Compartilhe:

Humberto Façanha
Publicado por Humberto Façanha

Atualmente é diretor da Unidos Consultoria e Treinamento e professor da Pós-Graduação em Análises Clínicas do curso de Biomedicina – Instituto Cenecista de Ensino Superior de Santo Ângelo (IESA). Professor do Centro de Pós-Graduação da Sociedade Brasileira de Análises Clínicas – CPG/SBAC. Mestre em Administração pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), Engenheiro Eletricista pela Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) e Engenheiro de Segurança do Trabalho pela Universidade de Passo Fundo (UPF). Especialista em Engenharia de Análise e Planejamento de Operação de Sistemas pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG/ELETROBRAS), formação em gestão da qualidade e Auditor Líder em ISO 9000. Contatos: [email protected] e [email protected]

Este conteúdo é de responsabilidade do colunista e não expressa a opinião do LabNetwork.