Exame de amostras de sangue periférico mostra ‘assinatura’ pré-sintomática em crianças que depois apresentaram a doença

Na pesquisa foram analisados os padrões de transcriptoma de mais de duas mil amostras de sangue periférico coletadas desde o nascimento até a idade de 15 anos de 401 crianças que desenvolveram autoimunidade de ilhotas ou diabetes tipo 1

Um estudo realizado por um consórcio internacional de instituições de pesquisa, liderado pelo Jeffrey Cheah Biomedical Center Cambridge (Reino Unido), verificou que mudanças na expressão gênica permitem prever, antes de surgirem os sintomas, se bebês e crianças irão apresentar diabetes tipo 1.

Na pesquisa foram analisados os padrões de transcriptoma de mais de duas mil amostras de sangue periférico coletadas desde o nascimento até a idade de 15 anos de 401 crianças que desenvolveram autoimunidade de ilhotas ou diabetes tipo 1. A abordagem incluiu análises da rede transcricional, predições de frequência de tipo de célula imune com base na expressão gênica e outras técnicas.

As amostras foram comparadas entre si e com as do grupo controle, formado por indivíduos da mesma idade que não apresentavam diabetes tipo 1. Os resultados mostraram que existe uma “assinatura”  autoimune pré-sintomática nas crianças afetadas que parece refletir aumento na atividade das células NK (natural killer). Estas células são um tipo de linfócitos citotóxicos importantes para a atuação do sistema imunológico e têm papel de destaque no combate a infecções virais e células tumorais.

Os pesquisadores identificaram as mudanças na expressão gênica em bebês e crianças de diferentes idades, inicialmente saudáveis e que não apresentavam outros sinais de possível evolução para diabetes tipo 1, mas que, posteriormente, desenvolveram a doença.

Os dados também foram combinados em um modelo que prevê o risco individual de apresentar diabetes tipo 1 ao longo do tempo e validados com os resultados de desempenho preditivo obtidos no DIPP (Type 1 Diabetes Prediction and Prevention). O DIPP é um estudo clínico populacional de longo prazo — começou em 1994 —, realizado por três hospitais universitários da Finlândia, com o objetivo de prever a ocorrência de diabetes tipo 1 e propor tratamentos. Diversos artigos já foram escritos com base nos achados do DIPP.

“Os resultados do nosso estudo indicam que o diabetes tipo 1 se caracteriza por mudanças precoces na expressão gênica que informam a imunopatologia da progressão da doença e facilitam a previsão de seu curso”, afirma o médico imunologista e PhD Eoin McKinney, coautor do trabalho.

Ele acrescenta que as descobertas sugerem que detectar mudanças na expressão gênica nos primeiros 18 meses de vida pode ajudar a identificar e tratar crianças que irão desenvolver a doença antes que elas apresentem os sintomas.

O artigo Transcriptional networks in at-risk individuals identify signatures of type 1 diabetes progression foi publicado em 31 de março de 2021 na revista Science Translational Medicine.

O diabetes tipo 1 resulta da produção insuficiente de insulina e, acredita-se, seja resultado de uma reação imunológica contra as próprias células beta pancreáticas do corpo. Porém, ainda não se conhece a causa exata da doença.

Segundo a Sociedade Brasileira de Diabetes (SBD), ela geralmente surge na infância ou adolescência, mas há casos em que é diagnosticada também em adultos. Pode interferir no crescimento e desenvolvimento da criança porque afeta os níveis de glicose no corpo.

De acordo com a SBD, o tipo 1 concentra de 5% a 10% do total de pessoas com diabetes no Brasil.

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diabetes tipo 1, expressão gênica, transcriptoma

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