Com a chegada da pandemia, as pesquisas precisaram ser aceleradas

Por Cristina Sanches

As pesquisas científicas têm um grande valor para a sociedade, como o desenvolvimento de novas tecnologias e a cura de doenças, por exemplo. Mas apesar da importância inegável, os mesmos desafios para quem atua nessa área persistem há décadas, como a falta de investimento e a maior integração entre universidades-sociedades-empresas – sem contar os cortes governamentais em educação e ciência. Além disso, a produção de pesquisa científica brasileira está concentrada em poucas universidades, na maioria das vezes, públicas. Com a pandemia, talvez esse quadro mude um pouco.

“A pandemia trouxe uma necessidade de profunda revisão de vários aspectos de nossa vida em sociedade. Modelos de negócios que, por uma questão de escala, custos, negligência ou outros motivos, foram se moldando a novas grandes redes globais que, se por um lado traziam acesso a pesquisadores em outros países, por outro desmontaram toda a estrutura de pesquisa científica que existia no Brasil”, avalia Carlos Eduardo Gouvêa, presidente executivo da Câmara Brasileira de Diagnóstico Laboratorial (CBDL).

Carlos Eduardo Gouvêa

Avaliando-se dois setores ligados à saúde – indústria farmacêutica e de diagnóstico – ele diz que observa-se uma diminuição gradativa de apoio ao longo das últimas décadas que levaram a praticamente uma extinção das pesquisas no Brasil, com sucateamento das estruturas acadêmicas e exportação dos cérebros – com poucas exceções. “Com o advento da Covid-19 e da corrida pelos poucos recursos existentes, ficou mais do que provado que necessitamos, e com urgência, de apoio a inovações locais, pesquisa e desenvolvimento.”

Com a chegada da pandemia, as pesquisas precisaram ser aceleradas para que fosse possível ter um melhor entendimento do vírus, da sua circulação, período de transmissão, incubação, sintomatologia e suas consequências, tanto orgânicas quanto socioambientais. “Com esse aumento das pesquisas e com a permissão do preprint (publicação prévia, sem a revisão aos pares), a enxurrada de artigos científicos invadiu os periódicos mundo afora. Esse aumento fez com que a qualidade dos artigos caísse; uma análise criteriosa deve ser feita ao tirar as informações dessas publicações. Por outro lado, trouxe a ciência para discussão popular e isso fez com que a população pudesse se inteirar das informações em tempo real. Essas informações, que nem sempre são verídicas, permitiram também a disseminação de fake news e a politização da ciência –  o que não está sendo benéfico no curso desta pandemia”, analisa Carlos Eduardo dos Santos Ferreira, presidente da Sociedade Brasileira de Patologia Clínica e Medicina Laboratorial (SBPC/ML).

Pesquisa e desenvolvimento

Carlos Eduardo dos Santos Ferreira

Ferreira explica que, atualmente, a indústria diagnóstica está focada no desenvolvimento e aprimoramento dos testes diagnósticos e de avaliação pós-vacinal. “Mas vale lembrar que o trabalho dos pesquisadores não pode ficar restrito ao novo coronavírus. As doenças crônicas, como diabetes, hipertensão, câncer, insuficiência cardíaca, infarto, entre outras, continuam a ser uma das principais causas de morbimortalidade na população mundial. A ciência e os pesquisadores do mundo todo não podem deixar de continuar o esforço no combate a essas patologias.”

Segundo um levantamento realizado pela Agência USP de Gestão da Informação Acadêmica, o Brasil, até outubro de 2020, ocupava a 11ª posição no ranking de publicações científicas relacionadas à Covid-19, com 168.546 publicações em todo o mundo. Dessas, 4.029 são assinadas por pesquisadores que trabalham no país.

Os números do Brasil mostram que entre as publicações sobre Covid-19, a maior parte foi de artigos científicos (3.542) e preprints (468). A maioria é de ciências médicas e da saúde (2.204). Mas há também produção de outras áreas. São artigos sobre ciências biológicas (207) e sociologia (183).

Esses dados apontam a tendência de bom desempenho da produção científica brasileira, apesar das conhecidas dificuldades. Agora, por exemplo, segundo Gouvêa, há vários novos produtos em desenvolvimento ou em fase de lançamento que deverão trazer informações cruciais sobre a eficácia das vacinas que estão sendo aplicadas na população – inclusive sobre os anticorpos neutralizantes, aqueles que poderão dizer o grau de imunidade adquirida pela vacina.

Ferreira explica que as empresas de diagnóstico in vitro já se mobilizaram e, com a contribuição dos pesquisadores, os testes para avaliação da resposta vacinal já estão disponíveis no mercado. Como grande parte das vacinas utilizam como substrato em sua composição o antígeno S (proteína Spike – espícula), os testes diagnósticos devem ser direcionados para esse epítopo e sua porção mais distal (RBD, sigla em inglês para receptor-binding domain; em português, receptor do domínio de ligação).

Nesta porção mais externa da coroa do vírus é onde os anticorpos se ligam e, dependendo da característica do anticorpo, ele pode ou não permitir a entrada do vírus nas células do nosso organismo. Caso esse anticorpo bloqueie a entrada do vírus na célula, é chamado de anticorpo neutralizante. “Os tipos de testes disponíveis para avaliação da resposta vacinal são os seguintes: IgG (anti-S), Anti-RBD e a pesquisa dos anticorpos neutralizantes.”

Danielle Zauli

Em 2020, o Grupo Pardini investiu aproximadamente R$ 2 milhões no desenvolvimento de testes laboratoriais (gerais, não só para Covid-19). Danielle Zauli, coordenadora de Pesquisa e Desenvolvimento, explica que o grupo desenvolveu e validou testes moleculares e sorológicos para detecção do coronavírus e para detecção dos anticorpos específicos. “Hoje, o Pardini tem no seu menu mais de dez tipos de testes para o diagnóstico de Covid-19, entre testes moleculares e sorológicos e para diferentes tipos de amostras clínicas: escarro, swab nasofaringe, saliva e lavado bronquioalveolar.”

No momento, o Pardini está desenvolvendo testes para detecção das variantes do SARS-CoV-2, e mesmo com a pandemia ainda em curso, os pesquisadores têm buscado desenvolver testes relacionados a diferentes áreas, como na Medicina Personalizada. “É importante pensar que outras doenças, como câncer, doenças degenerativas, síndromes raras, entre outras, continuam ocorrendo e é preciso termos o diagnóstico correto no tempo certo para uma melhor conduta terapêutica”, ressalta Danielle.

O DB Diagnósticos do Brasil também investiu no desenvolvimento de testes para detecção do coronavírus. “Havia uma falta muito grande de materiais básicos e insumos, com isso, os laboratórios precisaram se reinventar para realizar o diagnóstico preciso da Covid-19. Hoje, os laboratórios estão devidamente equipados e preparados para a demanda. Existe apenas uma plataforma in-house sendo utilizada atualmente”, explicam Nelson Gaburo, gerente geral da unidade DB Molecular, e Carlos Aita, responsável técnico do DB Diagnósticos do Brasil.

Nelson Gaburo

No momento, contam eles, o DB está focado no monitoramento do desempenho dos testes atuais frente às novas cepas variantes, assim como no desenvolvimento dos testes de identificação de variantes já existentes. “Além disso, atuamos constantemente na atualização do menu de exames para incluirmos os novos testes que vão sendo disponibilizados pelos fornecedores.”

Dependência de insumos e outros desafios

Outra grande amarra para o progresso da ciência e tecnologia brasileira é a burocracia excessiva. Os muitos trâmites administrativos atrapalham a aquisição de equipamentos e materiais.

A dependência de insumos que viabilizem o desenvolvimento de pesquisas e de novos produtos também tem seu impacto na pesquisa científica. “Ainda existe uma grande dependência de mercados tradicionais como a Ásia. Neste sentido, é necessária uma reavaliação de eventuais novas fontes de suprimento e de desenvolvimento local. Passa a ser estratégico ter alternativas para que se possa obter a autossuficiência”, ressalta Gouvêa.

Para Danielle, o elevado custo dos insumos necessários para o desenvolvimento de novos produtos, além do alto prazo de chegada dos mesmos, é o que mais prejudica o incentivo à pesquisa científica no Brasil. “Isto se deve ao fato de que a maioria dos insumos é importada, o que acarreta em um aumento do preço no momento da compra e um prazo de entrega de mais de dois meses, dependendo do fabricante.”

Tanto o Pardini quanto o DB Diagnósticos relatam que no ano passado, quando teve início a pandemia, chegou a ocorrer um desabastecimento de insumos, porém hoje o cenário está estabilizado.

Apoio da iniciativa privada

Carlos Aita

Outro ponto frequentemente abordado quando se fala em desafios em fazer pesquisa científica, é a distância que separa o mundo acadêmico do mundo real. Isso significa dizer que empresas e universidades não interagem como poderiam. Nessa questão, avalia Gouvêa, é necessário que as empresas apoiem financeiramente novos estudos, aproximando-se da academia por meio da apresentação de suas necessidades e projetos de colaboração. “As startups têm sido um bom exemplo de interação entre os dois mundos.”

Em outras palavras, a maior dificuldade, com poucos recursos, é transformar a produção científica em produto tecnológico, refletindo na melhoria da condição de vida das pessoas. Assim, muitas vezes, as descobertas não têm investimentos suficientes para serem desenvolvidas.

No Grupo Pardini, essa consciência está presente na empresa. Faz parte da estratégia da companhia firmar parcerias com universidades e centros de pesquisa com o objetivo de avançar no cenário da ciência e da inovação.

O momento atual exige mudanças na forma de pensar e fazer ciência

O contexto da pandemia favorece a aproximação da sociedade com a ciência. De acordo com a terceira edição do Índice Anual do Estado da Ciência (State of Science Index – SOSI), pesquisa global conduzida pela empresa de ciência e inovação 3M Company, a confiança dos brasileiros aumentou durante a pandemia.

No levantamento, 89% disseram acreditar que a atividade científica precisa de mais financiamento, 88% concordam que a ciência tornará suas vidas melhores nos próximos dez anos, 92% acreditam que as pessoas devem seguir os conselhos científicos para conter o vírus e 86% dos brasileiros acreditam que há consequências negativas para a sociedade se as pessoas não valorizarem a ciência.

“O momento atual tem nos mostrado que a ciência não é algo intangível. Muito pelo contrário! Ela pode rapidamente se transformar em grandes soluções para grandes problemas. Mas para tanto, ela precisa começar pequena e, aos poucos, desenvolver-se. É mais do que hora de mudarmos a nossa forma de enxergar a ciência”, finaliza Gouvêa.

Compartilhe: