Por Cristina Sanches

Biossegurança é um conceito que abrange um conjunto de medidas que visam prevenir riscos inerentes às atividades laboratoriais que possam comprometer a saúde dos profissionais, dos pacientes ou do meio ambiente. Todos os laboratórios apresentam uma infinidade de situações, fatores e atividades que trazem potenciais riscos aos profissionais e também ao ambiente ao seu redor.

Os equipamentos de segurança utilizados nos laboratórios devem ser definidos de acordo com o nível de biossegurança da área de trabalho dos profissionais e das probabilidades de risco a que eles estarão submetidos. A Norma Regulamentadora Nº 32 (NR-32) define minimamente o que deve ser cumprido, como o uso de jalecos, luvas, óculos, calçado fechado, cabelo preso, proibição de adornos, mas deve-se observar também o que outras instituições, como a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) e a Organização Mundial da Saúde (OMS) trazem como publicação de boas práticas para os laboratórios.

Juliana Gumiela, líder de Segurança do Trabalho do DB Diagnósticos, diz que os serviços de saúde possuem muitas áreas de insalubridade, com graduação variável que dependem de sua hierarquização e complexidade; do tipo de atendimento prestado (exemplo: atendimento exclusivo a moléstias infectocontagiosas) e do local de trabalho do profissional (laboratório, endoscopia, lavanderia etc.).

“Os riscos de agravo à saúde (radiação, calor, frio, substâncias químicas, estresse, agentes infecciosos, ergonômicos etc.) podem ser variados e cumulativos. Por suas características, encontram-se nos serviços de saúde exemplos de todos os tipos de risco, agravados por problemas administrativos e financeiros, como falta de manutenção de equipamentos, e alguns decorrentes de falhas na adaptação de estruturas antigas a aparelhos de última geração.”

O papel da biossegurança laboratorial

Clayton Soares, supervisor de Saúde Ocupacional no Grupo Pardini, comenta que “a biossegurança tem papel fundamental para alcançarmos condições seguras para todas as atividades desenvolvidas dentro dos estabelecimentos de saúde. Através do reconhecimento dos riscos e da sistematização dos processos, empregamos uma gama de ações que objetivam mitigar ou eliminar riscos inerentes às atividades desenvolvidas, trazendo segurança para todos que estão na cadeia de realização dos exames, sejam colaboradores, clientes e/ou o meio ambiente.”

O papel da biossegurança é reconhecer, gerenciar e traçar estratégias para lidar com os riscos, reduzindo-os ou eliminando-os quando possível. “Em um laboratório, é preciso antecipar e reconhecer os riscos por meio de análise técnica das condições do ambiente de trabalho. Reconhecer e saber que eles estão inseridos no nosso dia a dia é o primeiro passo para o sucesso das ações propostas, que podem ser iniciadas já no primeiro dia de trabalho do novo colaborador, nos treinamentos de integração e onboarding”, explica Soares.

Ele diz ainda que é possível minimizar os riscos com várias ações, como:

– Criação e implementação de um manual de biossegurança (política de segurança e saúde do trabalho);

– Desenvolvimento de programas de educação com foco em biossegurança;

– Elaboração de procedimentos com ênfase na gestão dos riscos;

– Adequação da estrutura física do laboratório de acordo com o nível de biossegurança;

– Disponibilização de vestimentas, equipamentos de proteção coletiva/individual;

– Fomento às várias comissões que podem oferecer apoio, como a Comissão Interna de Prevenção de Acidentes (CIPA), Comissão de Controle de Infecção Hospitalar (CCIH) – quando aplicável -, brigada de incêndio, núcleo de segurança do paciente, entre outras.

Em relação aos profissionais que atuam no laboratório, mas não diretamente com o paciente ou com a coleta ou manuseio de amostras, Soares explica que “devemos pensar em ações que protejam todos que, direta ou indiretamente, estão inseridos no nosso ambiente: pacientes, clientes, fornecedores, profissionais terceirizados e afins. O conceito de estabelecimento de saúde deve ser ampliado e contemplar a todos, incluindo também a sociedade onde o laboratório está inserido e o próprio meio ambiente.”

Importância dos treinamentos e da reciclagem constante

Diante da importância do tema, os profissionais que atuam em laboratórios clínicos precisam estar capacitados e treinados para atender a todas as exigências estabelecidas pelas principais normas. No Grupo Pardini, as reciclagens acontecem conforme cronogramas elaborados que contemplam a atuação e o nível de biossegurança de cada área, não deixando de fora colaboradores das áreas administrativas ou de apoio.

“Com o avanço da tecnologia, e considerando o contexto de pandemia, podemos fazer treinamentos de várias formas. Tivemos que nos reinventar para levar informações aos nossos colaboradores. Levamos os nossos conteúdos para uma plataforma da intranet, através do Portal do Conhecimento, e, em parceria com o nosso setor de Educação Corporativa, criamos treinamentos lúdicos, podcast, vídeos e uma trilha de conhecimento com todas as ações de biossegurança realizadas antes e durante a pandemia.”

Outro laboratório importante que investe no treinamento para manter a segurança de todos é o de Bio-Manguinhos/Fiocruz, cujo foco também está na capacitação continuada dos colaboradores e usuários envolvidos, incluindo bolsistas e estagiários, nos laboratórios de pesquisa. Segundo informações do Núcleo de Biossegurança da instituição, a capacitação deve compreender, no mínimo: procedimentos de boas práticas laboratoriais, utilização de equipamentos de proteção individual e coletiva, classificação de risco dos agentes biológicos, gerenciamento de resíduos de serviços de saúde, transporte de material biológico e ergonomia.

Além disso, todos os profissionais contratados para atuarem em área laboratorial devem possuir em seus currículos capacitação em biossegurança. É recomendado que todos, antes de iniciarem suas atividades, recebam treinamento nos procedimentos de acesso e conduta onde são abordados questões de biossegurança, boas práticas laboratoriais, além de treinamentos nos Procedimentos Operacionais Padronizados (POPs) do laboratório (toda vez que ocorre uma atualização dos POPs, os profissionais passam por uma reciclagem).

No manual POP são abordados temas como:

– Condutas e normas de segurança ambiental, biológica, física, química e ocupacional;

– Orientações de uso dos equipamentos de proteção, tanto individuais (EPI) quanto coletivos (EPC);

– Condutas a serem adotadas em caso de acidente;

– Manuseio de materiais e amostras biológicas nas instalações do laboratório e também fora delas.

Geralmente, as unidades de Saúde adotam a reciclagem em biossegurança, de todos os profissionais, a cada cinco anos, em cursos com grade completa e carga horária aproximada de 40 horas, apesar de não existir uma recomendação bem definida para esta periodicidade. É recomendável que os gestores da biossegurança e o RH sejam responsáveis por este controle.

Pandemia

A pandemia do novo coronavírus tem exigido a máxima dedicação por parte dos profissionais de saúde. “Os profissionais devem utilizar as medidas de precaução padrão de contato, mas faz-se necessário evitar tanto o exagero quanto a displicência na utilização dos materiais usados nas precauções”, explica Juliana Gumiela. Ela cita ainda que diversas outras medidas devem ser implementadas para reduzir o contato dos profissionais com materiais biológicos, como a adoção de técnicas mais seguras. Entre as quais, destaca:

– Planejamento e previsão: em setores de emergência, o material de proteção deve estar em local de fácil acesso. Atendendo às características de cada serviço, alguns profissionais podem permanecer parcialmente paramentados;

– Educação e treinamento: a sensibilização dos funcionários é imprescindível para o uso racional dos equipamentos de proteção individual e para a adoção das Precauções Universais, incluindo fundamentalmente a noção de descarte e lavagem apropriada das mãos, entre outras;

– Responsabilidade e participação: evitar acidentes é um trabalho de todos. Deve-se estimular a participação do grupo através da ideia de um por todos e todos por um. Caso uma pessoa cometa um erro, deve ser incentivada a repará-lo e tal fato deve ser valorizado.

Juliana diz que, com a pandemia, foi preciso rever protocolos. “Reforçamos a  importância de manter a segurança e prevenção da saúde de todos os colaboradores, terceirizados e ou visitantes que precisaram adentrar nas dependências dos locais, bem como estabelecer os protocolos de prevenção, medidas de segurança, identificação e adequado encaminhamento dos casos de coronavírus (confirmados e/ou suspeitos).”

O mesmo foi seguido pelo Grupo Pardini. “O vírus sofreu mutações, fornecedores tiveram dificuldade em ofertar os EPIs e houve escassez de profissionais. Além disso, novas variantes surgiram, vacinas foram criadas e cada vez que descobrimos novas informações ou foram publicadas notas orientativas pela Anvisa, tivemos que nos reorganizar e alterar os nossos protocolos internos. A pandemia, mais uma vez, veio nos ensinar que precisamos mudar quantas vezes forem necessárias, comunicando de forma rápida e eficaz para levar conhecimento o tempo todo ao nosso time”, comenta Soares.

A pandemia também levou a algumas mudanças de protocolo na Bio-Manguinhos/Fiocruz. Segundo informações do Núcleo de Biossegurança da instituição, no ambiente laboratorial surgiram novas recomendações, tais como manter a circulação de ar e utilização de filtros HEPA na entrada e saída de ar para preservar a contenção necessária para as atividades.

Riscos de biossegurança em laboratórios

Os riscos podem ser classificados em cinco categorias:

– Físicos: qualquer fator que cause danos físicos às pessoas ou ao ambiente, como ruídos, gases emitidos por máquinas, exposição à radiação ou à variação da temperatura;

– Químicos: possibilidade de contaminação provocada por agentes químicos, que podem penetrar no organismo por meio da pele, vias aéreas ou cortes;

– Biológicos: risco de contaminação por seres vivos (vírus, bactérias ou outros microrganismos);

– Ergonômicos: as desconformidades dos padrões de mesas, bancadas e cadeiras podem gerar danos às articulações e à coluna dos colaboradores, além de dores persistentes ao longo do dia;

– Acidentais: são todos os riscos aos quais os profissionais estão expostos e que podem ser prevenidos com algumas práticas, como uso de equipamentos de segurança e sinalização adequada nos locais, entre outros.

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