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Técnicas de proteômica foram utilizadas pelos pesquisadores para o desenvolvimento do trabalho inédito. foto: divulgação

Desenvolvido pelo Instituto Carlos Chagas (ICC/ Fiocruz Paraná), um estudo pioneiro poderá abrir novos caminhos para a pesquisa relacionada à Doença de Chagas. A investigação comprovou, pela primeira vez, que modificações em proteínas chamadas histonas – proteínas presentes no núcleo da célula e que são fundamentais para a compactação do DNA e para a regulação dos genes – estão amplamente presentes no Trypanosoma cruzi, parasita causador da doença. A pesquisa do papel dessas modificações em seres humanos e outros organismos já é consolidada no meio científico e contemplada pela área da Epigenética, a qual investiga mecanismos regulatórios hereditários que não envolvem mudança na sequência do DNA do organismo, bem como suas implicações no desenvolvimento de doenças como câncer e possibilidades de novas terapias.

“Sabemos que em outros organismos as modificações de histonas estão presentes e, em humanos, têm direcionado a descoberta de alvos para tratamento de diversas doenças. A partir disso, resolvemos investigar se elas também estariam presentes nas histonas do parasita. Antes desse estudo, acreditava-se que essas modificações no T. cruzi eram escassas e não teriam muita importância”, explica Gisele Picchi, pesquisadora do Laboratório de Biologia Molecular de Tripanossomatídeos do ICC. “Em outros organismos existem cerca de 20 tipos de modificações de histonas já comprovadas. Nosso trabalho mostrou, de forma inesperada, que as histonas do parasita apresentam, ao menos, 13 dessas modificações, evidenciando um perfil com a mesma complexidade e sofisticação de outros organismos”, ressalta a cientista.

Técnicas de proteômica – que envolvem o estudo em larga escala das proteínas expressas e suas modificações em uma célula, tecido ou organismo, incluindo a análise quantitativa da expressão ao longo do tempo, em diversas localizações celulares e/ou sob a influência de diferentes estímulos – foram utilizadas para o desenvolvimento da pesquisa inédita. “Nosso desafio metodológico foi grande, já que, num trabalho como este, há muitas peculiaridades. Desde a preparação das amostras, até a coleta e análise de dados, todo o protocolo é diferenciado em relação a estudos de proteômica convencionais”, dispara Lyris Martins Franco de Godoy, pesquisadora do Laboratório de Genômica Funcional do ICC.

Segundo Lyris, os próximos passos incluem a investigação aprofundada dos impactos dessas modificações. “Há mais de uma década, esses aspectos são estudados nas células de seres humanos e outros mamíferos, porém ainda é uma área recente de investigação, que tem muito crescer. A partir de agora, se abre um campo fértil para os estudos da importância e função das modificações de histonas na biologia e patogênese do T. cruzi, bem como para a busca de alvos com potencial para o desenvolvimento de drogas epigenéticas contra a Doença de Chagas”, finaliza a pesquisadora.

Os resultados da pesquisa são apresentados em um artigo científico publicado na edição de janeiro de 2017 do periódico Journal of Proteome Research. (Post-translational Modifications of Trypanosoma cruzi Canonical and Variant Histones. Gisele F. A. Picchi, Vanessa Zulkievicz, Marco A. Krieger, Nilson T. Zanchin, Samuel Goldenberg, and Lyris M. F. de Godoy. Journal of Proteome Research 2017 16 (3), 1167-1179. DOI: 10.1021/acs.jproteome.6b00655).

 

Doença de Chagas, um problema de saúde pública

No Brasil, devido à transmissão vetorial domiciliar ocorrida no passado e hoje interrompida, predominam os casos crônicos da Doença de Chagas. Estima-se que existam entre dois e três milhões de indivíduos infectados e a doença registra cerca de 150 mil novos casos anualmente, segundo dados recentes do Ministério da Saúde. Globalmente, os casos se concentram no México e em países da América do Sul e América Latina. Porém, movimentos populacionais em grande escala têm expandido as áreas onde os casos da doença são encontrados, registrando um aumento de casos, desde 2014, em países da Europa e Estados Unidos.

Descoberta pelo pesquisador brasileiro Carlos Chagas em 1909, a doença é transmitida mais frequentemente por insetos triatomíneos, conhecidos popularmente com barbeiros. Logo após a infecção, os pacientes apresentam um grande número de parasitas no sangue e podem ter sintomas como febre, dor de cabeça, fraqueza intensa e inchaço no rosto e nas pernas.

Nesta fase da doença, o tratamento com drogas capazes de matar os protozoários costuma ser eficaz, embora tenha fortes efeitos colaterais. No entanto, em muitos casos a fase aguda da doença tem sintomas leves ou é assintomática, e a infecção acaba sendo descoberta no estágio crônico. Nesta etapa, os parasitas se alojam nos músculos do coração e no aparelho digestivo. Os pacientes podem permanecer anos sem sintomas, mas as lesões causadas nos órgãos vão se acumulando e, em 30% dos casos, os indivíduos apresentam complicações cardíacas, enquanto 10% têm complicações digestivas. Na fase crônica, não há ainda comprovação da eficácia dos medicamentos disponíveis.

Em 2006, o Brasil recebeu um certificado da OMS e da Organização Panamericana de Saúde (Opas) por ter conseguido interromper a transmissão da doença de Chagas pela espécie de barbeiro mais frequente no país: o Triatoma infestans. No entanto, segundo o Ministério da Saúde, nos últimos anos, estão surgindo novos casos da infecção devido a uma forma alternativa de transmissão ligada à contaminação de alimentos. A doença também pode ser transmitida por meio de transfusão de sangue, transplante de órgãos e da mãe para o feto. Com informações do Instituto Carlos Chagas (Fiocruz Paraná)

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