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O trabalho é o primeiro a sugerir associação entre níveis salivares de betadefensina e polimorfismo no microRNA 202.

A digestão dos alimentos começa com a mastigação e a ação da saliva. Além de facilitar a digestão, a saliva tem em sua composição substâncias antimicrobianas que agem no combate a microrganismos que podem causar doenças na boca, entre elas a cárie.

Um destes agentes químicos é a betadefensina (DEFB1), um peptídeo antimicrobiano produzido a partir de informações transmitidas pelos microRNAs associados ao gene que dá origem ao peptídeo – o microRNA constitui uma classe de RNA não recombinante com papel fundamental na regulação da expressão gênica.

Um trabalho que acaba de ser publicado na revista Caries Research, publicação científica focada exclusivamente na pesquisa da cárie, investigou a associação do polimorfismo genético na betadefensina e microRNA 202 com a variação dos níveis do antimicrobiano e o aparecimento da cárie.

A pesquisa reuniu uma equipe de 12 profissionais de São Paulo e do Rio de Janeiro. A primeira autora é Andrea Lips (o estudo derivou do seu trabalho de doutorado), da Universidade Federal Fluminense, e a pesquisadora responsável pelo trabalho é a sua coorientadora de doutorado, Erika Calvano Küchler, Jovem Pesquisadora-FAPESP do Departamento de Clínica Infantil – Disciplina de Odontopediatria da Faculdade de Odontologia de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (USP).

“É o primeiro artigo em Odontologia a estudar o polimorfismo genético em microRNA”, disse Küchler, que conduz a pesquisa “Avaliação do papel do estrógeno no desenvolvimento dentofacial”, apoiada pela FAPESP.

“A cárie é uma doença multifatorial complexa e que podemos prevenir. Nosso interesse neste trabalho foi tentar entender quais seriam os mecanismos moleculares, principalmente aqueles de origem genética, envolvidos no aparecimento da cárie em crianças”, disse.

O polimorfismo genético designa a existência de diferentes alelos (variações) de um mesmo gene. As formas mais comuns de polimorfismos genéticos são deleções, mutações e substituições das bases que compõem o código de cada gene. Quando há polimorfismo, a informação que o gene carrega é alterada, com consequências (ou não) para a sua ação no organismo.

Os pesquisadores queriam entender se existiria uma relação entre os níveis de betadefensina na saliva – e, portanto, maior ou menor suscetibilidade ao aparecimento da cárie – com a ausência ou a presença de polimorfismo tanto no gene responsável pela produção de betadefensina (DEFB1) quanto no microRNA 202, que atua na expressão daquele gene.

“Em alguns estudos, o polimorfismo no gene que codifica a betadefensina tem sido associado à cárie dentária em humanos. Nossa hipótese partia da ideia de que a falha na ação antimicrobiana das betadefensinas que previnem a formação da cárie poderia estar ligada a malformações (polimorfismos) no gene DEFB1 ou no microRNA 202”, disse Küchler.

“Nosso trabalho consistiu em duas partes. A primeira visou replicar os estudos entre o gene da betadefensina e a suscetibilidade à cárie na população brasileira, para verificar se obteríamos os mesmos resultados. A segunda parte deu um passo adiante, ao fazer uma análise para detectar a associação ou não entre polimorfismo no microRNA 202 e a suscetibilidade ao desenvolvimento da cárie”, disse.

Os níveis salivares dos peptídeos de betadefensina hBD1, hBD2 e hBD4 foram acessados a partir de amostras de saliva de 168 crianças (92 meninos e 76 meninas) entre 2 e 12 anos, da pré-escola e do ensino fundamental de Nova Friburgo, Rio de Janeiro.

Foram incluídas somente crianças livres de cárie (81 crianças) e crianças com grande quantidade de cárie, ou seja, quatro ou mais lesões (87 crianças). Para a coleta, as crianças precisavam estar sem comer nem escovar os dentes há pelo menos 30 minutos, de modo que a composição da saliva fosse a menos alterada possível.

As análises genotípicas de polimorfismo em DEFB1 e nos três genótipos do microRNA 202 (TT, CT e CC) foram feitas nas mesmas amostras, de modo a avaliar o impacto das variações polimórficas nos níveis salivares de betadefensina.

A pesquisa consistiu ainda na realização de um questionário comportamental entre as crianças para detectar, por exemplo, o número de escovações diárias (1, 2, 3 ou mais), quais crianças escovavam os dentes antes de dormir, quais usavam fio dental e quais ingeriam doces entre as refeições. Os resultados foram tabulados de acordo com a divisão entre crianças livres de cárie e crianças com muitas cáries.

Por fim, foi feita uma análise multifatorial que levou em conta os resultados genotípicos de DEFB1 e do microRNA 202, os níveis de betadefensina na saliva e os critérios de avaliação comportamental das 168 crianças.

“Na primeira parte do trabalho, não conseguimos verificar uma associação entre polimorfismo em DEFB1 e variações nos níveis salivares de betadefensina hBD1, hBD2 e hBD4. Mas, na segunda parte, descobrimos uma associação entre polimorfismo no microRNA 202 e os níveis de betadefensina. A análise genotípica do microRNA 202 demonstrou que o seu genótipo CC estava associado a níveis menores de betadefensina hBD1 na saliva. Houve associação entre o microRNA 202 e a suscetibilidade à cárie”, disse Küchler.

Os resultados sugerem que o genótipo CC do microRNA 202 interage com o RNA mensageiro do gene de DEFB1, já que a expressão da betadefensina hBD1 na saliva é menor nas crianças que carregam o genótipo CC do microRNA 202. E a expressão menor de hBD1 na saliva é um fator de suscetibilidade para o aparecimento de lesões de cárie.

Trata-se de um resultado importante, porém ainda preliminar. O trabalho é o primeiro a sugerir associação entre níveis salivares de betadefensina e polimorfismo no microRNA 202. Para saber se, de fato, o resultado procede, é necessário que a pesquisa seja replicada em outros estudos.

Grupos de pesquisadores de instituições de ensino superior do Paraná e do Amazonas iniciaram a coleta e análise de amostras de saliva em crianças de Curitiba e Manaus. Do resultado dessas investigações depende a validação dos resultados de Küchler, Lips e colegas.

“No futuro, quando identificarmos o conjunto de genes associados ao aparecimento da cárie, será possível detectar, bem cedo, quais crianças teriam maior predisposição ao desenvolvimento de cárie e iniciar tratamento de prevenção”, disse Küchler. Com informações da Fapesp

Tags:

betadefensina, cárie, polimorfismo genético

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