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Pesquisadores da Oxitec inseriram dois genes em ovos de Aedes aegypti. Um desses genes é responsável por gerar uma proteína que impede o desenvolvimento normal dos mosquitos, impedindo que eles cheguem a fase adulta ou reprodutiva. foto: divulgação/Oxitec

Se você perguntar para qualquer pessoa na rua quais são os métodos para evitar a proliferação do mosquito Aedes aegypti, provavelmente, irá ouvir as mesmas respostas de sempre: não deixar água parada, limpar as calhas, fechar a caixa d’água, colocar areia nos pratinhos dos vasos, entre outras. Apesar de todas essas respostas estarem corretas, ainda assim, todos os dias, ouvimos notícias sobre o aumento de casos de dengue, chikungunya ou zika, que são as doenças transmitidas por esse mosquito. Todas as medidas que evitam o acúmulo de água têm o mesmo objetivo: evitar a reprodução do mosquito, já que suas larvas necessitam deste ambiente para se desenvolver.

Além disso, existe também um outro método, chamado técnica do inseto estéril, que também interrompe o ciclo de vida do mosquito antes dele se reproduzir. A técnica consiste na criação e na utilização de mosquitos Aedes aegypti machos estéreis. Esses mosquitos, apesar de serem estéreis, ainda podem produzir espermatozoides e fertilizar os ovos das fêmeas, e, assim, gerar as larvas. Tais larvas, no entanto, não chegam ao estágio adulto e, portanto, não se reproduzem. Quando liberados no meio ambiente, os mosquitos estéreis se acasalam com as fêmeas (e as fêmeas, geralmente, acasalam somente uma vez) gerando uma prole de larvas inviáveis, o que diminui a população do mosquito.

Eventualmente, diversas liberações de machos estéreis podem diminuir drasticamente ou, até mesmo, eliminar a população de mosquitos em uma determinada área. Uma das técnicas para gerar os machos estéreis era realizada por meio da exposição dos machos a certas doses de radiação. Essa técnica foi utilizada eficientemente para erradicação da mosca tsé-tsé em Zanzibar, na África. O problema da radiação é que ela pode deixar alguns mosquitos muito doentes, o que desfavorece seu acasalamento com as fêmeas.

No entanto, uma variação dessa técnica foi desenvolvida, na qual os machos estéreis passaram a ser gerados por meio de uma alteração genética. Pesquisadores de uma empresa inglesa chamada Oxitec inseriram dois genes em ovos de Aedes aegypti. Um desses genes é responsável por gerar uma proteína que impede o desenvolvimento normal dos mosquitos, impedindo que eles cheguem a fase adulta ou reprodutiva. A ideia nesse caso é a mesma do caso anterior, ou seja, gerar mosquitos estéreis que se acasalam com fêmeas normais e que geram larvas inviáveis.

Uma das grandes vantagens desse método é o fato de que os mosquitos transgênicos não apresentam desvantagens de acasalamento quando comparados com os mosquitos normais. Outra grande vantagem está relacionada com o segundo gene inserido nos ovos. Esse segundo gene é responsável por produzir uma proteína que gera fluorescência nas larvas.

Isso é importante porque, depois da liberação dos machos transgênicos, é possível identificar a proporção de larvas afetadas em relação às larvas normais e assim, determinar a eficiência do método e dosar adequadamente a quantidade de machos transgênicos que deve ser liberada.

A cidade de Piracicaba, no interior de São Paulo, atualmente passando por seu pior surto de dengue, resolveu liberar 25 milhões de Aedes transgênicos em um bairro, com o intuito de verificar o desempenho do método e suas possíveis consequências. Como resultado, foi verificada uma redução de 82% na quantidade de larvas espalhadas pelo bairro e 9 casos de dengue foram registrados depois da ação contra 124 registrados antes da liberação. Depois dos ótimos resultados, a prefeitura da cidade informou que vai prorrogar o projeto por mais um ano e que também pretende estendê-lo para o centro do município. Outras cidades do Brasil também já testaram o mosquito transgênico, igualmente obtendo bons resultados. Em Juazeiro, na Bahia, houve redução de 80% do número de larvas e de 95% de mosquitos em um de seus bairros. E um teste em Jacobina, também na Bahia, identificou uma redução de 79%.

Mesmo com ótimos resultados, o Aedes aegypti transgênico ainda não pode ser utilizado amplamente no Brasil devido às regulamentações e autorizações dos órgãos competentes que ainda estão em andamento. Ainda, toda vez que se fala em transgênico, surgem os aspectos relacionados a biossegurança e outras possíveis consequências da sua utilização ou consumo. Uma das preocupações de alguns pesquisadores está relacionada com a tetraciclina que funciona como um antídoto para o mosquito transgênico. Ou seja, os mosquito transgênicos, quando consomem alimentos ricos em tetraciclina, deixam de ser estéreis e podem se reproduzir normalmente.

No entanto, o nível normal deste “antídoto” no ambiente não é alto o suficiente para “curar” os mosquitos. Uma outra preocupação está relacionada com a ocupação por uma outra espécie de mosquito que também pode transmitir os vírus (Aedes albopictus) quando o Aedes aegypti for erradicado, o que não resolveria o problema.

De qualquer maneira, é muito importante que nós tenhamos diferentes ferramentas para erradicar os mosquitos e assim, prevenir a dengue, chikungunya e zika, pois os métodos convencionais parecem não estar funcionando muito bem.

Tags:

Aedes aegypti, alteração genética, fluorescência, mosquitos estéreis

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Eduardo Castan
Publicado por Eduardo Castan

Graduado em Zootecnia pela UNESP de Botucatu (2007), realizou seu mestrado em Genética e Melhoramento Animal pela UNESP de Jaboticabal (2010) e Doutorado em Genética e Melhoramento Animal com foco em sequenciamento de nova geração e bioinformática. Parte deste doutorado foi realizado em Harvard University, Boston- EUA, onde adquiriu experiência na análise de dados de sequenciamento aplicando bioinformática. [email protected]

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