Nova epidemia preocupa agentes de saúde e reforça a importância de campanhas de prevenção e incentivo ao diagnóstico precoce

Causada pela bactéria Treponema pallidum, a sífilis é uma infecção sexualmente transmissível (IST) que voltou a preocupar os agentes de saúde devido ao expressivo aumento no número de casos. Na entrevista a seguir, a médica infectologista da Divisão de Doenças Infecciosas e Parasitárias do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP e médica assessora para Análises Clínicas em Infectologia do Fleury Medicina e Saúde, Carolina Lázari, fala sobre as possíveis causas dessa nova epidemia e as alternativas para reverter esse cenário.

O Brasil tem vivido uma nova epidemia de sífilis?
O cenário é bastante preocupante. De 2010 a 2015, a taxa de detecção de sífilis aumentou de 0,8 para 42,7 casos por 100 mil habitantes. O mais grave, entretanto, é que evidentemente o problema se reflete em gestantes e, consequentemente, nos recém-nascidos, que adquirem a infecção ainda na vida intrauterina. Eles podem desenvolver as formas mais graves da doença, com sequelas permanentes. A transmissão materno-fetal é responsável, ainda, por abortos, natimortos, óbitos neonatais e partos prematuros. Nas gestantes, a taxa de detecção aumentou de 0,5 para 11,2 casos por mil nascidos vivos, de 2005 a 2015. Já a detecção de sífilis congênita aumentou de 1,1 para 6,5 casos por mil nascidos vivos entre 2000 e 2015.

Quais as possíveis causas desse aumento no número de casos da doença?
A sífilis adquirida, ou seja, em pessoas que se infectaram por via sexual depois do nascimento, não era agravo de notificação compulsória até 2010. Certamente, parte desse aumento se deve aos fluxos mais eficientes de notificação dos casos, desde o estabelecimento da portaria que obriga serviços de saúde públicos e privados a notificarem o Ministério da Saúde sobre doenças, agravos e eventos de saúde pública. Mas não somente isso. A vivência prática de quem trabalha com doenças infecciosas e diagnóstico laboratorial mostra que o número de casos está crescendo objetivamente, sobretudo entre homens em idade sexualmente ativa, estando diretamente relacionado às práticas sexuais desprotegidas.

Como é feito o diagnóstico da doença?
A sífilis é diagnosticada por exames de sangue do tipo sorologia. Existem várias técnicas, cuja combinação de resultados requer interpretação médica para definir se a doença está presente e em atividade. De modo geral, utilizamos testes treponêmicos, isto é, que pesquisam anticorpos específicos contra o Treponema pallidum, e não treponêmicos, que, embora não se baseiem em proteínas específicas da bactéria, detectam anticorpos altamente reativos durante a fase de atividade da doença. Os testes treponêmicos são bastante específicos, raramente apresentam reatividade cruzada, entretanto, uma vez que a pessoa tenha sífilis, o teste permanecerá positivo por longo tempo, mesmo depois do tratamento, o que o torna limitado para confirmar atividade da doença no momento. Para esse fim, são utilizados os testes não treponêmicos, que são positivos apenas quando a doença está ativa, mas não podem ser utilizados isoladamente porque podem ser reagentes também em outras doenças, como as reumatológicas. Para gestantes, também são utilizados testes rápidos. Na dúvida, é importante sempre consultar um infectologista.

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epidemia, sífilis, Treponema pallidum

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